Skip to main content

Vivendo Juntos Como Um Mercado

[Este artigo corresponde ao capítulo 1 do livro Free Private Cities: Making Governments Compete for You, por Titus Gebel]

É perigoso despertar o leão, o dente do tigre faz perecer, porém, o mais terrível de todos os horrores é o homem em sua ilusão.

Friedrich Schiller,
Poeta e Pensador

 

Este livro é sobre porquê precisamos de alternativas na área mais importante de nossas vidas e como seriam essas alternativas. Essa área é a convivência em sociedade. Nossos piores inimigos, há muito tempo, deixaram de ser desastres naturais ou predadores, outras pessoas se tornaram a principal ameaça. A questão crucial é, portanto, como delineamos a comunidade com nossos semelhantes. Humanos são capazes de concordar com certas visões de mundo e até mesmo sacrificar suas vidas por elas. Se essas ideias são duvidosas ou perigosas, todos estão em perigo. O único problema real com a humanidade é que as pessoas procuram impor sua vontade aos outros. A tarefa é, portanto, criar uma ordem que impeça que isso aconteça.

A visão predominante no Ocidente pressupõe que uma combinação de democracia e estado de direito é suficiente para combater o abuso de poder e facilitar a coexistência próspera. Após o colapso do Bloco Comunista do Leste, alguns chegaram até a proclamar o “fim da história”. [1] As democracias liberais e constitucionais [2] eram vistas como o ponto final do desenvolvimento, não sendo possível maiores progressos. Em pouco tempo, todos os países do mundo adotariam esse sistema. Este equívoco, no entanto, se deve, em parte, ao fato de que todas as nossas constituições liberal-democráticas violam suas próprias leis civis, pois são contratos em detrimento de terceiros. Voltaremos a essa ideia mais tarde.

Nossa coexistência também é um arranjo de mercado, pois está sujeita às mesmas forças, quer gostemos disso ou não. Um mercado está sempre presente aonde quer que pessoas não completamente satisfeitas se reúnam. Todo mercado é caracterizado por reunir a oferta e a demanda por bens, serviços e direitos. Mesmo que a maioria dos eleitores prefira um sistema econômico anti-mercado e os políticos implementem tal sistema, isso é um resultado de mercado [3].

Os Estados também existem porque há uma demanda por eles. Uma ordem estatal cria uma estrutura dentro da qual as pessoas podem interagir socialmente e trocar bens pacificamente. A existência de segurança e regras fixas permite que um grande número de pessoas vivam em conjunto. Essa coexistência é tão atraente que as pessoas estão dispostas a aceitar restrições consideráveis ​​à sua liberdade pessoal para desfrutá-la. Mesmo os súditos do ditador mais violento provavelmente escolherão o status quo em vez da vida de Robinson Crusoé em uma ilha solitária. O homem é um animal social.

O mercado de convivência não apenas é o mais importante, mas também é o maior mercado. A atividade do Estado é responsável por aproximadamente 30% do produto interno bruto dos países. [4] No entanto, o desempenho é fraco. A maior “empresa” neste mercado, os Estados Unidos da América, exibe perdas de aproximadamente 1.000 bilhões de dólares por ano em seu balanço [5]. Alguns participantes do mercado, como a Suécia e a Alemanha, intencionalmente atraem novos clientes não qualificados que carecem de alimentação e, assim, afastam seus clientes regulares e bem remunerados. Alguns concorrentes, como o Irã ou a Coréia do Norte, chegam ao ponto de matar seus próprios clientes por um comportamento que nem seria considerado punível em outros lugares. [6]

Qualquer empresário razoavelmente qualificado deve ser capaz de fazer melhor que isso.

Se alguém pudesse de alguma forma oferecer os serviços do Estado e, ao mesmo tempo, evitar suas armadilhas – mais e mais tributação e paternalismo, ao passo que as regras do jogo mudam constantemente – então, um produto melhor terá sido criado. Se o “produto” for bem sucedido, mais pessoas vão querer algo parecido. Novos conceitos serão necessários para atendê-las, é claro. Se toda nova abordagem for rejeitada no início como um sonho utópico, é provável que disso resulte estagnação.

O cerne das utopias políticas do passado é que a participação voluntária nunca foi pretendida. Quase todas as ideias utópicas clássicas são basicamente totalitárias, começando com Platão e seus reis filósofos até a ditadura do proletariado de Marx e avançando até a ideia atual de uma Grande Transformação em decorrência da mudança climática. [7] Uma minoria esclarecida consegue o que quer, independentemente de todos ou de qualquer outra pessoa achar que seja uma boa ideia ou não. Se esta minoria for substituída por uma maioria democrática, apenas o número de pessoas que estão sendo governadas contra sua vontade mudará, não o princípio por trás do esquema.

A competição como processo de descoberta, por outro lado, quase nunca ocorre entre os ordenamentos estatais. Pelo contrário, o estado está avançando com acordos internacionais similares aos dos cartéis comuns para impedir a concorrência fiscal ou institucional. Embora o modelo comunista tenha praticamente deixado de estar representado no mercado de viver juntos desde o colapso da União Soviética, esse processo levou mais de setenta anos. E aqui reside outro problema: há apenas a possibilidade de introduzir um novo “produto” neste segmento de mercado ao assumir o governo, por revolução ou por secessão. Isso torna extremamente difícil penetrar no mercado. São necessárias gerações para que o conhecimento sobre a eficácia das diferentes formas de governo se estabeleça. Elas dificilmente se tornam evidentes ao longo da vida um indivíduo qualquer. Mesmo em estados democráticos há a constante falta de um escape para as minorias instalarem contra-modelos, que podem vir a ser superiores futuramente. Patri Friedman, o fundador do The Seasteading Institute [8], foi um dos primeiros a perceber isso:

A Indústria estatal precisa de inovação. Porque qualquer forma de regra mais cedo ou mais tarde se tornará rígida. A organização de civilizações saturadas se torna incrustada ao longo do tempo, o estado reduz as potencialidades e, por sua vez, eleva os preços. Isso também, e especialmente, se aplica às democracias ocidentais. [9]

Para muitos, a ideia de que estado e mercado são duas esferas separadas parece completamente incomum. E parece completamente natural para nós que um líder ou um grupo de pessoas sábias tome decisões políticas por nós. Tanto é assim que nem consideramos a autodeterminação como uma alternativa. Vamos fazer um experimento mental:

Suponha que tenhamos criado um novo tipo de marmelada. Poderíamos agora discutir com os outros sobre qual marmelada é a melhor, poderíamos fundar iniciativas de cidadãos, clubes e festas que anunciam nossa marca. Tentaríamos atrair meios de comunicação, artistas, intelectuais e poderosos grupos de interesse para o nosso lado. Solicitaríamos opiniões de especialistas e pesquisas para provar a superioridade de nossa descoberta em relação a outras variedades de marmelada. Em suma, estamos a adotar uma política de marmelada. Isso seria ridículo, não seria? Que cada um compre o doce que quiser! Vamos ver se o nosso tipo é bem sucedido.

No entanto, ainda não vislumbramos a ideia de aplicar essa abordagem ao modo como vivemos juntos. Continuamos a lutar apaixonadamente pela abordagem “certa” ou “justa”. Por que nós simplesmente não aceitamos que somos humanos diferentes e que o que A gosta não precisa ser imposto sobre B?

Nós não obtemos melhores aparelhos de telefone celular porque podemos expor nossa opinião como acionistas na Assembleia Geral Anual, mas porque todos podem comprar o produto que quiserem e celulares ruins em breve não mais estarão em demanda. Porque todo mundo faz o mesmo, existem dispositivos excelentes e baratos disponíveis hoje em dia. Até mesmo os pobres dos países em desenvolvimento podem usar celulares com ampla capacidade técnica. Isso funciona tão bem porque encontrar soluções no mercado é um processo evolutivo que ocorre por meio de mutação (tentativa e erro), seleção (lucratividade ou falência) e reprodução (imitação de soluções bem-sucedidas).

Precisamos agora aplicar esse mecanismo comprovado aos nossos sistemas de coexistência. Se todos podem decidir diariamente por meio de suas decisões de compra quais produtos continuam a existir e quais não, isso não é muito mais democrático no sentido de um governo de todos? Em todo caso, parece certamente mais democrático do que votar a cada poucos anos em políticos cujas intenções são desconhecidas e cujo sucesso na implementação é incerto.

A concepção de uma ordem social como um “produto” e a competição pacífica entre sistemas por cidadãos enquanto “clientes” irá dissipar consideravelmente os conflitos políticos anteriores. Se existem alternativas suficientes, até mesmo sistemas baseados em descendência étnica ou sentimento de comunidade, incluindo aqueles que rejeitam a propriedade privada, são apenas produtos disponíveis entre muitos. Isso se aplica até mesmo se seus organizadores rejeitarem veementemente essa perspectiva. Contanto que novos experimentos ocorram em território limitado e com voluntários, o dano em caso de fracasso é também administrável e aceitável devido ao consentimento informado dos participantes.

A criação de novos sistemas de convivência no século XXI não é apenas possível, mas provável. Stefan Zweig já reconheceu em 1936 que a maioria nunca confiaria o controle do Estado ao “paciente e justo”, mas sempre a alguns charlatães que evocam grandes questões de destino e pretendem saber as respostas para elas. [10] Isso tem acontecido com tanta frequência na história humana que é relativamente óbvio que os “pacientes e justos” devem agora começar a estabelecer suas próprias comunidades. As chances para isso não são ruins. As pessoas se deslocam mais e com maior facilidade. Para muitos, o lar no futuro será uma casa adotada. O progresso tecnológico também oferece a indivíduos e pequenos grupos, opções apreciáveis ​de design. Ao mesmo tempo, a tendência para a urbanização continua inabalável. [11] A maioria prefere viver em cidades do que no campo, o que também é um resultado de mercado e deve ser aceito como tal. Isso levanta a questão de como serão as cidades do futuro, pois esses serão os centros das futuras sociedades.

Uma resposta a isso são Free Private Cities.


Tradução: Robson Cassiano 
Revisão: Pedro Dias


The idea comes from the book of the same name by Fukuyama, 1992.

[2] This means: Every adult citizen is entitled to vote; there are equal, direct, secret right to vote, primacy and reservation of the law, basic individual rights.

[3] A purely immaterial demand is also a demand for the corresponding supply. So it is not without reason that we speak of the “marriage market” and the fact that someone is “still available”. Here, too, supply meets demand and it would be self-deception to believe that self-interests and a corresponding balancing of what is offered would play no role here, for example with regard to attractiveness, status, similarities, origin, education. Even as far as pure friendships are concerned: if one side only gives and
the other only takes and not even recognition or a good conversation jumps out in return, the friendship will not last long.

[4] This corresponds approximately to the average state ratio of all countries.

[5]https://de.statista.com/statistik/daten/studie/165796/umfrage/haushaltssaldo-der-usa/

[6] Like blasphemy, witchcraft or adultery: http://todesstrafe.amnesty.at/zahlen_fakten.php

[7] In this respect, it is frightening to see the omnipotence fantasies of Schellnhuber and others, Schellnhuber 2011.

[8] www.seasteading.org

[9] Friedman, 2013.

[10] Zweig, 1985: “Humanity, always submissive to the suggestive, has never submitted to the patient and the righteous, but always only to the great monomaniacs, who had the courage to proclaim their truth as the only possible, their will as the basic formula of world law.”

[11] Historically, there has been a continuous increase in the proportion of the urban population. Since 2008, for the first time in history, more people have been living in cities than in rural areas.


Titus Gebel é um empresário alemão e PhD em direito. Ele fundou, entre outros, Deutsche Rohstoff AG (www.rohstoff.de) e vive atualmente com a sua família no Principado de Mônaco.

 

One thought to “Vivendo Juntos Como Um Mercado”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: