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Panarquia e Cidades Empresariais

O que as cidades empresariais podem ter em comum com uma esquecida filosofia política do século XIX? A seguir, faço uma leitura comentada de trechos da obra do visionário autor que lançou ao mundo sua peculiar visão política.

Similaridades entre Panarquia e Cidades Empresariais

Em 1860, o economista e botânico belga Paul Emile de Puydt publicou o ensaio Panarquia, originalmente em francês1, no periódico Revue Trimestrielle, no qual delineava um sistema político em que todos teriam o direito de escolher sob qual forma de governo desejariam viver. Em outras palavras, Puydt aplicou o conceito da liberdade de escolha, laissez-faire, laissez-passer, ao sistema de governo (ou não-governo).

Minha panaceia, se me permite o termo, é simplesmente livre competição no ramo governamental. Todos possuem o direito de prover sua própria possibilidade como bem entender e obter segurança por conta própria. Por outro lado, isso significa progresso através da competição entre governos por seguidores. Verdadeira liberdade universal é aquela que não é forçada a ninguém, estando disponível a todos justamente a quantia desejada; não suprime nem engana, e está sempre sujeita a um direito de apelação.

[...] Em suma: liberdade de escolha, competição. “Laissez-faire, laissez-passer!” Esse maravilhoso lema, inscrito na bandeira da ciência econômica, será também um dia o princípio do mundo político. A expressão “economia política” dá um aperitivo dele e, interessantemente, algumas pessoas já tentaram mudar seu nome, por exemplo, para “economia social”. O bom senso intuitivo das pessoas não permitiu tal concessão. A ciência econômica é e sempre será a ciência política por excelência. Não foi ela que criou o princípio moderno de não intervenção e seu slogan “Laissez-faire, laissez-passer”?


Michael S. Rozeff, no artigo Why I Am a Panarchist2, expressa em outras palavras o conceito de Puydt:

“Eu pessoalmente não quero viver sob tal poder e tais imposições, e é por isso que sou anarquista. Mas também reconheço que outros gostariam de fazê-lo, o que é uma das razões pelas quais sou panarquista. Eu não quero abolir o seu governo, que você pode querer para si, mas eu quero ter meus próprios meios de governança para mim mesmo. É também por isso que sou panarquista”.

Ou, ainda, de forma sucinta, escreveu Puydt:

A liberdade deveria se estender até ao direito de não ser livre, e incluí-lo.


Visto que existem diferentes pessoas com diferentes ideologias e preferências políticas, porque não aplicar as mesmas regras das organizações voluntárias também a entidades políticas? Cada qual teria, portanto, liberdade para viver sob o sistema social que deseja, sem afetar terceiros com sua escolha.

O que é mais admirável sobre essa inovação é que ela acaba para sempre com revoluções, rebeliões e brigas de rua, até as últimas tensões no tecido político. Está insatisfeito com seu governo? Mude para outro! Essas três palavras, sempre associadas com horror e derramamento de sangue, palavras que todos os tribunais, superiores ou não, militares e especiais, sem exceção, culparam unanimemente de incitar rebeliões, essas três palavras se tornam inocentes, como se estivessem nas bocas de seminaristas [...]. Como afeta apenas a você, eu não posso discordar da sua decisão. Sua mudança não afeta mais ninguém - esse é seu mérito; não envolve uma maioria vitoriosa ou uma minoria derrotada [...].


Assim como as cidades empresariais, a panarquia não se opõe à existência de diferentes modelos de sociedade, desde que adesão seja voluntária e individual.

Qual, basicamente, sem levar em conta pressuposições, é a função de qualquer governo? Como indiquei acima, é suprir seus cidadãos com segurança, no sentido mais amplo da palavra, e sob condições otimizadas. Estou ciente de que nesse assunto em particular nossas ideias ainda estão um tanto confusas. Para alguns nem mesmo um exército significa proteção suficiente contra inimigos externos; para alguns nem mesmo uma força policial, uma ronda, um promotor público e todos os honoráveis juízes são suficientes para garantir ordem interna e proteger títulos de propriedade e direitos. Alguns desejam um governo abarrotado de cargos bem remunerados, com legiões de servidores públicos mantendo as finas artes, teatros e atrizes. Eu também sei que aqueles são slogans vazios propagados por governos brincando de providência, como já mencionamos. Até a liberdade de experimentação lhes ter feito justiça, eu não vejo problema algum em deixá-los continuar a satisfazer seus partidários. Eu peço apenas uma coisa: liberdade de escolha.

Nós devemos notar, no entanto, a existência de governos aqui e acolá tão liberais quanto permite a fraqueza humana, ainda assim as coisas não são uma maravilha na melhor das possíveis repúblicas. Alguns dizem “Isto ocorre justamente porque há muita liberdade”, já outros: “Isto se dá porque ainda não há liberdade suficiente”. A verdade é que não há a liberdade que deveria haver, a liberdade fundamental de escolher ser ou não ser livre.

Uma pessoa precisa de excitação e disputas - quietude seria mortal para ela. Outro, um sonhador e filósofo, está ciente dos movimentos da sociedade distante dela - seus pensamentos são formados apenas na mais profunda paz. Um, pobre, ponderado, um artista desconhecido, precisa de encorajamento e apoio para criar seu trabalho imortal, um laboratório para seus experimentos, um bloco de mármore para esculpir anjos. Outro, um gênio vigoroso e impulsivo, não suporta algemas e quebra o braço que o guiaria. Para alguns uma república é satisfatória, com sua dedicação e abnegação; para outro uma monarquia absoluta, com sua pompa e esplendor. Outro, um orador, preferiria um parlamento; outro, incapaz de falar dez palavras articuladas, não teria nada a ver com tais tagarelas. Existem espíritos fortes e mentes fracas, algumas com ambições insaciáveis, e algumas que são humildes - felizes com a pequena cota que lhe cabe.

Finalmente, existem diferentes necessidades quanto há personalidades diferentes. Como todas elas poderiam ser reconciliadas por uma forma única de governo?


Tanto na literatura sobre cidades empresariais como na panarquia, se reconhece o benefício que decorre da competição no ramo governamental.

[...] a partir do momento que todas as formas de governo estão sujeitas a experiência e livre competição, elas estão destinadas a progredirem e a se aperfeiçoarem; essa é a lei da natureza. Não mais hipocrisia, profundidades aparentes que contém apenas um pequeno vazio. Sem maquinações se passando por sutilezas diplomáticas. Não mais movimentos covardes ou impropriamente camuflados de política Estatal. Não mais brigas militares ou judiciais enganosamente descritas como honráveis ou de interesse nacional. Resumidamente, sem mentiras no que toca a natureza e a qualidade das ações governamentais. Tudo é aberto a um exame detalhado. Os súditos fazem e comparam observações, e os poderosos finalmente veem essa verdade econômica e política, que no mundo há apenas uma condição para um sucesso sólido, duradouro, e que é governar melhor e mais eficientemente do que outros.

[...] graças a lei da competição, cada governo se esforçaria para se tornar o mais simples e econômico quanto possível. Os departamentos governamentais, o quanto nos custam, apenas Deus sabe! Nossa própria vigilância os reduziriam ao mínimo necessário; e burocratas supérfluos teriam que abdicar de seus postos e se engajar em trabalho produtivo [...]. Muitos governos constituiriam um mal e dariam margem para o aparecimento de despesas excessivas, para não falar de confusão. Entretanto, a partir do momento que alguém percebe esse mal, o remédio está em suas próprias mãos. O senso comum das pessoas não apoiaria nenhum excesso e rapidamente apenas governos eficientes seriam capazes de continuar em atividade. Os demais definhariam até a morte. Como pode ver, a liberdade é a resposta para tudo.

[...] sob o reino da competição, que governo se deixaria ser suplantado por outros na corrida para o progresso? Que melhorias disponíveis para um vizinho contente uma pessoa recusaria introduzir para sua própria casa? Tal competição constante faria milagres.


A panarquia, assim como as cidades empresariais, propõe o primado da autodeterminação individual, e esta é sua única bandeira. Isto é, a possibilidade de responder a organizações em declínio, neste caso, organizações governamentais, não somente através da ‘voz’, como é de costume nos atuais sistemas (voto, protesto, abaixo-assinado etc), mas também através da ‘saída’3. Nas palavras de Puydt, o exit principle é assim formulado: “Mude para outro”. Vale destacar que a ‘saída’ aqui referida é a possibilidade de retirar-se de um dado sistema institucional, não necessariamente ter de sair do território jurisdicional de tal sistema institucional. Ou seja, isto inclui, por exemplo, criar uma zona especial dentro da jurisdição de um estado, contudo, a zona não mais teria que operar segundo o regime geral de instituições que vale para o restante do território.

[...] Para fazer tal liberdade acontecer, não haveria necessidade de abdicar de tradições nacionais nem de laços familiares, sem necessidade de aprender a pensar numa nova linguagem, de atravessar rios ou mares, carregando os ossos de seus ancestrais.


A panarquia não requer destruição de sistemas, mas possibilita a existência simultânea e a evolução gradual por competição entre o novo e o velho. Sendo assim, a panarquia e as cidades empresariais compartilham de uma boa combinação entre prudência e inovação, conciliando permanência e mudança no fluxo de transformação das formas institucionais antigas para as novas formas. Isto é, as novas formas de organização social podem conviver com o edifício institucional hodierno, pois não são mutuamente excludentes, ensejando o advento de instituições de governança mais responsivas4 e que tragam, ao invés de rupturas (revoluções), mudança gradual por competição.

As leis da natureza são imutáveis; toda legislação deve ser baseada nelas, uma vez que apenas elas possuem a força para alicerçar a sociedade, mas a estrutura é o próprio trabalho da humanidade. Cada geração é como um novo inquilino, o qual antes de se chegar muda algumas coisas de lugar, limpa a fachada, e adiciona ou remove uma dispensa, de acordo com suas necessidades. De tempos em tempos alguma geração, mais vigorosa ou mais preocupada com o presente do que suas predecessoras, derruba o edifício inteiro, dormindo no vazio até ele estar reconstruído. Quando, após milhares de privações e com enormes esforços, ela se ajustou para reconstruí-lo sob um novo plano, ela fica desapontada ao descobrir que o último não é muito mais confortável que o primeiro. É verdade que aqueles que fizeram os planos estão alojados em bons apartamentos, bem situados, quentes no inverno e refrescados no verão; mas os outros que não tiveram escolha, são relegados às lajes, aos porões ou aos sótãos. Assim sempre há dissidentes e encrenqueiros suficientes, dos quais alguns sentem falta do velho edifício, enquanto alguns dos mais visionários já sonham com outra demolição. Para cada um que está satisfeito existe uma massa inumerável de descontentes.

Entretanto devemos sempre lembrar que alguns estão satisfeitos. O novo edifício de fato não é perfeito, mas possui suas vantagens; por que derrubá-lo amanhã, depois, ou sequer algum dia, enquanto abriga inquilinos suficientes para mantê-lo em atividade? Eu próprio detesto os demolidores tanto quanto os tiranos. Se você acha que seu apartamento é inadequado ou muito pequeno ou insalubre, então o substitua - é tudo o que eu peço. Escolha outro, mude-se sem alarde; mas pelo amor de deus não exploda o edifício todo enquanto o faz. O que você pensava que não o servia mais pode deleitar seu vizinho. Compreende minha metáfora?


Cidades Empresariais, da mesma forma que a panarquia de Puydt, ensejam a evolução institucional da sociedade, mas com cautela, preservando o edifício de instituições que está à nossa disposição hoje, ainda que imperfeito. Ademais, as inovações institucionais são experimentadas em grupos de pioneiros, que voluntariamente as buscam. Cidades empresariais e panarquia compartilham de prudência ao experimentar algo novo e não totalmente conhecido, bem como de flexibilidade para fazê-lo sem ter que “derrubar o edifício”. Ademais, é sempre importante contextualizar as mudanças, pois não só as instituições são novas, mas cada momento histórico é único (e, portanto, novo!), o que exige de nós o máximo discernimento e sensatez.

As instituições da sociedade estão em permanente evolução e novas formas institucionais surgem a cada momento. Por que devemos correr o risco de aplicar inovações sociais a toda uma população, como tradicionalmente se faz na política? Cidades empresariais e outras zonas startup, por sua vez, permitem que os sistemas sociais evoluam "on demand", isto é, novas formas institucionais só afetam diretamente os seus adeptos, bem como prosperam apenas com base no interesse destes.

Em outro ponto do texto, Puydt faz uma observação de caráter bastante atual. Àquela ocasião, ele se referiu ao papel da imprensa, que em sua época tinha a relevância que, atualmente, está cada vez mais centrada nas redes sociais.

Minha ideia é meramente uma semente ao vento. Cairá ela em terra férteis ou estradas de paralelepípedos? Eu não tenho o que dizer quanto a isso. Não proponho nada. Tudo é uma questão de tempo. Quem, a um século atrás, acreditava na liberdade de consciência, e quem, nos dias de hoje, a questionaria? Há tempo que as pessoas ridicularizavam a ideia de a imprensa ser um poder no interior do Estado? Agora até estadistas se curvam perante ela. Você por acaso previu essa nova força da opinião pública, cujo nascimento todos nós presenciamos, a qual, apesar de apenas em sua infância, impõe seu veredito sob impérios? É de maior importância até nas decisões dos déspotas. Você não teria rido da cara de alguém que se atrevesse a prever sua ascensão?

Uma Importante Distinção

Uma distinção entre a panarquia e as cidades empresariais reside em que o conceito de Puydt é 'extraterritorial', isto é, não limita a escolha de governo a fronteiras geográficas.

Não é uma questão de imigração. Um homem não carrega a sua terra nativa na sola do sapato. Além disso, tamanha expatriação é e sempre será impraticável. O custo envolvido não seria coberto nem por toda a riqueza do mundo. Eu não tenho o propósito, por exemplo, de realocar a população de acordo com suas convicções [...]

Por exemplo, você é um republicano. [...] A Monarquia não o apetece - o ar é muito sufocante para seus pulmões e seu corpo não possui a liberdade de ação que sua composição demanda. De acordo com seu estado de espírito atual, você está propenso a derrubar esse edifício, você e seus colegas, e construir seu próprio no lugar. Mas para fazer isso você teria que levantar-se contra todos os monarquistas que se mantêm fiéis ao seu credo, e em geral contra todos aqueles que não compartilham de suas convicções. Faça melhor: monte, declare seu programa, calcule seu orçamento, abra listas de filiação, prepare um inventário; e se numeroso suficiente para cobrir os custos, estabeleça sua república.

Meu método difere dos procedimentos tirânicos e injustos tomados no passado no fato de eu não ter intenção em causar violência para ninguém. Alguém deseja promover uma cisão política? Esse alguém deveria ser permitido, propriamente apenas com uma condição, que ele o fará apenas dentro de seu próprio grupo, sem afetar nem os direitos nem as crenças dos demais. Para alcançar isso, é absolutamente desnecessário subdividir o território do Estado em tantas partes quanto existam formas conhecidas e aprovadas de governo. Como antes, eu deixo tudo e todos em seu lugar.


Uma aplicação moderna das ideias do autor belga está sendo realizada pela iniciativa Bitnation. Resumidamente, é uma plataforma virtual que possibilita a criação ou adesão a jurisdições descentralizadas, sem fronteiras e voluntárias. Tais jurisdições virtuais não precisam corresponder às fronteiras/divisas políticas e são de livre adesão, isto é, faz-se parte delas somente se assim o quiser. É possível ser “cidadão” de diversas “nações” ao mesmo tempo, ou, mesmo, não ser de nenhuma, provendo autodeterminação para as pessoas escolherem sob quais leis querem viver. Dessa forma, é possível fomentar um livre mercado global para serviços voluntários de governança sem as tradicionais restrições territoriais. Cada qual pode viver sob o sistema que desejar sem impor seu sistema aos outros. Em síntese, é a panarquia numa versão tecnologicamente atualizada, com ferramentas digitais modernas no lugar das agências de filiação política propostas por Puydt.

Vá a uma Agência de Filiação Política, com o chapéu na mão, e peça educadamente para seu nome ser transferido para qualquer lista que lhe apeteça. O Comissário colocará os óculos, abrirá o registro, marcará sua decisão, e lhe dará um recibo. Você parte, e a revolução está completa sem derramar mais que uma gota de tinta.


Com as novas tecnologias, se permite à governança voluntária extraterritorial um alcance jamais imaginado por Puydt, pois o autor vislumbrava suas ideias sendo aplicadas em filiações próximas ao nível municipal, já o alcance da Bitnation é global.

Finalizada a apresentação do conceito de extraterritorialidade, bem como do caso ilustrativo da Bitnation, passemos a detalhar a distinção que há entre a panarquia e o conceito territorial de governança das cidades empresariais.

Presumivelmente, o mecanismo da panarquia irá funcionar com elegância para bens não territoriais, isto é, para aqueles bens cujo benefício que se pode auferir do seu consumo não está relacionado ao local. O benefício proporcionado por uma barra de chocolate, por exemplo, é idêntico, quer a barra seja saboreada no centro de uma metrópole ou em sua periferia. Quer seja fornecida por um provedor ou por inúmeros concorrendo numa mesma área. De forma idêntica, um plano de assistência médica funciona igualmente bem. Por isso, os vemos concorrer em nosso dia a dia sob o mesmo território, ao invés de existir apenas um provedor de serviços médicos por cada dado espaço territorial.

Contudo, existem os chamados “bens territoriais” ou “locacionais”, isto é, bens que são oferecidos a pessoas apenas de forma indireta e cujos benefícios as pessoas podem extrair por estarem naqueles locais específicos. Isso é colocado em detalhe no livro The Art Of Community, de Spencer H. MacCallum5.

O zoneamento é um exemplo de bem territorial. Imagine que alguém queira desfrutar da localidade de sua residência, próxima a pequenas lojas varejistas de bairro, mas distante de certos tipos de indústrias. Digamos que essa pessoa deseja morar em um bairro de casas, onde predomina a baixa densidade de uso da terra, sem edifícios. Essa situação pode ocorrer sem nenhum tipo de zoneamento, mas nada garante que será duradoura. Um zoneamento mínimo, não ostensivo, pode ajudar a reduzir externalidades negativas e a preservar o potencial de uso econômico de locais residenciais, comerciais, industriais, recreativos etc. Isto é, pode gerar valor e ser objeto de demanda. Pois bem, agora imagine a situação de uma cidade onde existem 10 entidades políticas voluntárias, com membros dispersos e mesclados ao longo da extensão da cidade, e que estes terão que chegar a uma conclusão sobre qual zoneamento será concretizado. Como não se pode aplicar todos planos de zoneamento simultaneamente, algum terá que prevalecer, afetando terceiros que não concordaram com tais parâmetros de uso da terra, o que contraria a proposta panarquista de não interferência em sistemas sociais alheios.

Ruas e rodovias são outro exemplo de bens territoriais. Os benefícios que se pode extrair dessas estruturas depende diretamente do local. Para cada pessoa, dentro de uma mesma cidade, existem ruas que são usadas diariamente e ruas que nunca serão transitadas ao longo de uma vida. Em outras palavras, o benefício que se pode extrair de 1 m2 de asfaltamento difere significativamente entre pessoas a depender do local. Isso significa que, para esse tipo de bem, faz mais sentido as pessoas se associarem com vizinhos para prover a construção do que com pessoas do outro lado da cidade, o que ressalta o aspecto territorial desse tipo de governança.

Por fim, Puydt aplica o conceito de extraterritorialidade também aos sistemas legais.


[...] Você obedeceria seus próprios líderes, suas próprias leis, e suas próprias regulações. Em última instância, todos viveriam em sua própria comunidade política individual, como se não houvesse outras, digamos, dez comunidades políticas nas redondezas, cada uma com seus próprios contribuintes.


O autor oferece a seguinte solução para conflitos interpessoais que envolvam diferentes sistemas legais:

Se uma desavença acontecesse entre membros de governos diferentes, ou entre um governo e um súdito de outro, seria simplesmente um caso de observar os princípios até então observados entre Estados vizinhos pacíficos; se uma discrepância fosse encontrada, poderia ser superada sem dificuldades pelos direitos humanos e todos os outros direitos possíveis. Qualquer coisa seria o trabalho de cortes de justiça comuns.


No entanto, a existência de múltiplas agências provendo leis distintas em um mesmo espaço geográfico poderia ocasionar o aumento significativo dos custos de transação, dada a necessidade de decidir, em cada caso, qual lei deverá ser aplicada. Conforme observou Titus Gebel em seu recente livro6 Free Private Cities: Fazendo Governos Competirem por Você: “Existem regras estabelecidas no caso de conflito entre leis, o que chamamos de direito internacional privado. No entanto, ao aplicar estas regras na prática, é imprevisível e, muitas vezes, inesperado qual lei acabará por ser aplicada”.

Se ocorrer tal complexidade e custo, certamente o desenvolvimento do ambiente de mercado será refreado.

Há que se observar que, entre o conceito de que milhões de pessoas devem estar sob uma mesma legislação, como ocorre nas legislações de âmbito nacional, e, no outro extremo, o conceito de que “cada um é seu país”, pode haver um meio termo que preserve a força competitiva entre sistemas legais, sem, contudo, tornar demasiadamente complexo o sistema de convívio social. Puydt, de certa forma, reconhece esse ponto por meio de seu interlocutor imaginário:

Isso é uma mina de ouro para argumentos legais, o que traria todos os advogados para seu lado.


Devo destacar que nada do que foi afirmado nessa seção pretende demonstrar a impossibilidade da panarquia conforme imaginada por Puydt, apenas se ressalta algumas possíveis dificuldades e custos que poderiam advir de tal configuração. Como Puydt, eu afirmo: Que isto seja experimentado com seus adeptos! Veremos se funciona.


Conclusão

Então, livre competição no ramo governamental assim como em todos os casos. Imagine, uma vez que tenha superado seu espanto, o quadro de um país exposto à competição governamental - isto é, simultaneamente possuindo tantos governos competitivos quanto já foram concebidos e ainda serão inventados.

Sob as condições atuais um governo existe apenas pela exclusão de outros, e um partido pode exercer poder apenas ao destroçar seus oponentes; uma maioria sempre é prejudicada por uma minoria impaciente para governar. Sob tais condições, é quase inevitável que os partidos se odeiem e vivam, se não numa guerra, num estado de paz armada. Quem se surpreende ao ver que as minorias conspiram e se agitam, e que governos destroem à força qualquer aspiração a uma forma política diferente que também seria exclusiva? Então a sociedade acaba sendo composta por homens ambiciosos e ressentidos, esperando por vingança e por ambiciosos homens de poder, sentados complacentemente na beira de um precipício. Princípios errôneos nunca trazem consequências justas, e a coerção nunca leva à verdade ou ao direito.

Agora imagine que toda essa compulsão termine; que todo cidadão adulto é e continuará livre para escolher dentre as formas possíveis de governo oferecidas, uma que se ajuste às suas convicções e satisfaça suas necessidades pessoais; livre não somente no dia seguinte a alguma revolução sangrenta, mas sempre, e em qualquer lugar, livre para escolher, mas não para forçar sua escolha a outros. Nesse momento, toda a desordem chega a um final, e lutas infrutíferas se tornam impossíveis.


Em suma, o que diferencia a panarquia da maior parte das teorias políticas é a não-imposição de modelos sociais. Não há um modelo social a ser implantado, somente um princípio, a autodeterminação, que serve como estrutura para a criação de modelos sociais.

Entendo! - diz um leitor. Você é um desses utópicos que constroem a partir de muitas peças um sistema no qual a sociedade deve estar compreendida, por vontade ou força. Nada será como é, apenas sua panaceia salvará a humanidade. “Comprem minha salvação!”

Errado! Não tenho uma salvação que não seja a de todos, eu sou diferente de outros apenas em um ponto, é que sou partidário de todas as salvações, permitiria todas as formas de governo. Ao menos, aquelas que têm alguns partidários.


A panarquia de Puydt e as cidades empresariais são abordagens consistentes pró-indivíduo, que levam o conceito da autodeterminação ao seu limite, uma vez que propõem que cada qual viva no sistema que desejar, mesmo que seja um sistema não livre.

Quem sabe não seja possível combinar a renovação/resgate do sistema social à normalidade ética, proposta pela matriz intelectual que advoga o respeito aos direitos naturais, com o pragmatismo/realismo do conservadorismo, que se opõe ao desmonte das instituições que nos trouxeram até aqui? Quem sabe não se possa rumar pelos caminhos do realizável, fazendo a cada momento histórico o melhor que se pode, com prudência, procurando viabilizar a melhoria das instituições sociais por meio de pequenos grupos de pioneiros?

Clique aqui para ler Panarquia (1860) de Paul Emile de Puydt, em português, na íntegra.


1 De Puydt, P. E. Panarchie, 1860. Termo cunhado por Puydt que significa algo como “todos os governos”. Do grego pás, pása, pán, "todo, por inteiro"; do latim archia, do grego arkhia, “regra, governo”.

2 Texto disponível em: https://www.lewrockwell.com/2009/01/michael-s-rozeff/why-i-am-a-panarchist/?fbclid=IwAR2IIdaEA1DijIEzNc7Kvzaf76fo5kYYPkAyqN_F26GGhbGBZuhhq0Q02wg

3 Albert Hirschman. Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States, 1970.

4 Capacidade de dar resposta rápida e adequada a uma situação. Responder a uma situação conforme se espera. No campo da administração, pode designar disposição ou prontidão no atendimento ao cliente.

5 MacCallum, S. H. (1970). The Art of Community. Menlo Park: Institute for Humane Studies.

6 Gebel, Titus (2019). Free Private Cities: Fazendo Governos Competirem por Você.


Pedro Dias é economista, estudioso da Escola Austríaca de Economia e entusiasta da temática das cidades empresariais. Em 2018, criou este site como um repositório para textos relativos à governança privada e demais temas correlacionados.

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