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O Revigoramento da Evolução Social

Anos atrás, eu li uma tradução, supostamente verdadeira, de uma sequência de hieróglifos egípcios antigos que dizia que o mundo estava indo para o buraco. Depois de listar uma série de lamentações, incluindo a desobediência dos jovens e como eles já não respeitam os mais velhos, finalizava com a observação de que “todo mundo está tentando escrever um livro”.

Portanto, sempre parece a todas as gerações que o mundo está se desintegrando. Há uma boa razão para que pareça assim, uma razão muito compreensível. O mundo está em fluxo, com novas formas sempre evoluindo a partir das antigas. Nós estamos familiarizados com os padrões antigos porque os vivenciamos, mas não com os novos e emergentes, porque nunca fizeram parte da nossa experiência. Consequentemente, raramente reconhecemos os novos padrões que estão em processo de formação. Conhecendo apenas os padrões que foram, tudo o que vemos na mudança é desintegração – padrões sendo perdidos. Isso é particularmente fácil de ser visto na linguagem, nos esforços dos pedagogos para treinar os jovens para falarem “gramaticalmente”. Mas o mesmo fenômeno ocorre em todas as áreas da nossa experiência. Então, a desintegração lamentada pelos egípcios e por, provavelmente, cada geração antes e depois é, em sua maior parte, aparência apenas. Ela poderia, tão bem quanto, ser chamada de integração ao invés de desintegração, exceto que não temos a evidência diante de nossos olhos. Nós devemos assumi-la na fé.

O mesmo é verdade para a mudança social – o amplo movimento da evolução social humana. Contudo, o movimento evolutivo não é gradual, mas parece ser pontuado por mudanças abruptas entre um plano de formas comparativamente estáveis ​​e o próximo – porém, sempre preservando e construindo sobre a forma anterior. É como uma escada que consiste em degraus e elevações. Os degraus são longos períodos de instituições relativamente estáveis, enquanto as elevações são períodos de mudança turbulenta e instabilidade que devem ser vencidos antes do próximo largo degrau ser alcançado, assim como o salmão em desova deve vencer a corredeira rochosa antes de atingir o próximo trecho de rio relativamente tranquilo. O salmão salta e recua, salta e recua, mas cada vez avança sem recuar o mesmo tanto, até vencer a turbulência. A humanidade vem enfrentando uma corredeira por mais de cinco mil anos. Um período extremamente breve dentre as Eras em que o homem ocupou a terra, não obstante, seu avanço e recuo repetido ao longo desse período é o padrão recontado em livros didáticos de história e relatórios arqueológicos, o infindável surgimento e queda de civilizações.

O largo degrau anterior na escada, o calmo trecho de água que deixamos para trás, foi o tribalismo, caracterizado pela dependência de sistemas de status baseados em laços de parentesco para organizar todos os papéis e atividades costumeiros na sociedade. Agora, dependendo menos do parentesco, a humanidade está experimentando uma ampla variedade de relações contratuais. Sir Henry Sumner Maine foi certeiro quando observou, há mais de um século, em seu clássico Ancient Law, “Podemos dizer que o movimento das sociedades dinâmicas tem sido, até agora, um movimento do status para o contrato” (1986: 141).

Eu suspeito que nós, salmões, chegamos agora a um ponto em que, ao avançarmos, começamos a ver, por sobre o topo das quedas ou corredeiras, o próximo trecho calmo em nosso rio. Apenas começamos a discernir e a fazer alguns julgamentos sobre o que a natureza da sociedade humana será, uma vez que novamente estabilizada no próximo largo degrau da evolução. Eu vou assumir o risco – não acho que seja muito grande – de fazer algumas previsões sobre a sociedade humana à medida que ela se apruma em um nado comparativamente suave em algum momento do próximo século e, provavelmente, por algum tempo além.

Tribalismo versus os Estados-Nações

Considere, inicialmente, onde estivemos. Como antropólogo, concentrei boa parte da minha atenção nas sociedades tribais. Em muitos aspectos, a era do tribalismo, em comparação com hoje, foi uma era de ouro, a ser sobrepujada apenas pelo que ainda está reservado para nós. Isto não é fechar os olhos para o fato de que a vida tribal deixou muito a desejar. A proficiência tecnológica do homem tribal era tão limitada que ele estava constantemente à mercê da natureza. Esta limitação foi particularmente grave no que se refere à saúde; A expectativa média de vida abaixo de trinta anos apenas permitiu a reposição biológica. Uma segunda grave lacuna sob o tribalismo foi que a vida social humana se amalgamou, por assim dizer, em gotas antagônicas espalhadas ao redor do mundo com mínima comunicação ou cooperação entre os membros de um grupo e aqueles de outro. As oportunidades eram essencialmente limitadas ao círculo de relacionamento face-a-face no qual cada um nascia.

Estas foram sérias desvantagens. Mas houve um lado positivo. Dentro de cada uma dessas gotículas antagônicas, as relações sociais tinham uma ordem e um senso de jogo limpo [fair play] quase incompreensíveis para nós hoje. A sociedade consistia de pequenas unidades de gestão, bastante humanas em escala, e as relações entre os membros – pelo menos entre os homens – tendiam firmemente a ser igualitárias, honestas e justas. O chefe de uma aldeia, por exemplo, embora desfrutasse de influência e prestígio, não exercia autoridade sobre a pessoa ou a propriedade de nenhum outro membro. Ele tinha a mesma autoridade, em espécie, que aquela exercida pelo membro menos importante. Não havia recrutamento de pessoas, nem tributação. A sociedade tribal era coerente neste quesito por toda parte. No sentido jurídico de liberdade, uma pessoa é livre quando desfruta a plena integridade de sua pessoa e propriedade. A sociedade tribal era livre.

Deixe-me fazer uma advertência. Tal generalização não inclui formas transicionais na fronteira entre tribos e estados. Quando as tribos atravessam esse limite e se tornam estados, elas podem reter muitas de suas características tribais por um longo período. Sabemos que estamos lidando com um estado, no entanto, quando a força se institucionalizou e é aceita como uma conduta adequada dentro do grupo de cooperação. Em The Art of Community (1970: 98-99), descrevi o exemplo da tribo Cherokee, em 1761, se transformando em um estado. O momento de transição foi definitivo, embora muitas características tribais persistam até hoje. Os Cherokee se encaixam dentro de nossa generalização antes de 1761, mas não depois.

A sociedade moderna, sob a influência dos governos políticos, é o inverso do tribalismo. Imagine a humanidade como um grande pássaro que almeja voar. Sob o tribalismo, uma de suas asas, a saber, aquela da ciência e tecnologia, esteve a se arrastar no chão, impedindo-a de alçar voo. Embora aquela asa esteja agora elevada, nossa organização social agora se arrasta. Em ciência e tecnologia fizemos enormes conquistas, mais que duplicando nossa expectativa média de vida dentro de poucas gerações – algo que talvez possamos fazer novamente – e desfrutamos de recursos virtualmente ilimitados de comunicação e troca com outros seres humanos em qualquer lugar do planeta. Nisto houve progresso. Mas, em nossa vida política, regredimos. Mais de trezentos milhões de pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, são governadas monoliticamente a partir do topo e seu chefe executivo regularmente exerce uma autoridade que difere absolutamente, em espécie, daquela exercida por cidadãos particulares em seus assuntos cotidianos. Sob constante vigilância e sujeição a essa autoridade, as pessoas estão, até certo ponto, sufocadas, tornaram-se cifras, sua individualidade foi apagada. Nossos ganhos, mesmo em ciência e tecnologia, estão ameaçados devido ao crescimento e alastramento desenfreado e, aparentemente, incontrolável, da coerção institucionalizada.

A perspectiva de viver sob o domínio do estado-nação é realmente sombria, se vista apenas sob a ótica da desintegração das instituições e modos de vida nos quais crescemos ou que conhecemos dos relatos dos nossos avós e da nossa leitura. Contudo, a mudança, como eu disse anteriormente, é caracteristicamente não apenas “a partir de”, mas também “em direção a”. Tem dois aspectos, um deles praticamente invisível até que nós quase esbarremos contra ele. Os padrões recém-formados não estão contemplados em nossa experiência, consequentemente, tudo o que podemos ver é a desintegração que a mudança traz. E o futuro? Será que a humanidade conseguirá manter as duas asas no alto algum dia?

A experiência passada deve tranquilizar-nos de que, no quadro amplo, a mudança é mais integrativa do que desintegrativa. É demonstrável que isso é verdade, pois, a longo prazo, se a saúde não fosse mais persistente do que a doença, para usar uma expressão caseira do meu avô, nenhum de nós estaria aqui hoje. Mas, felizmente, nós salmões alcançamos um ponto, quase no topo da nossa corredeira rochosa, onde não precisamos confiar apenas em conjecturas filosóficas. Na nossa mente, pelo menos, começamos a ver por sobre o topo das quedas d’água – e com esse vislumbre do futuro, começamos a reconhecer e interpretar eventos que estão acontecendo ao nosso redor. Começamos a perceber as mudanças evolutivas fundamentais que ocorrem na estrutura e função da nossa organização social, mudanças que em breve seremos capazes de reconhecer como parte de um padrão emergente.

A Mudança Está Ganhando Velocidade

Como tal mudança pode estar acontecendo? Vamos rever alguns conceitos básicos. Certamente, uma das diferenças mais significativas entre o tribalismo e a sociedade de hoje é a facilidade muito maior da humanidade com números. A capacidade de manipular números torna possível, por um lado, todo o mundo da ciência e suas aplicações e, por outro, o comércio moderno – mundos totalmente estranhos ao homem tribal. A facilidade com números não é, por si só, uma causa suficiente, mas é um pré-requisito. Sem ela, não poderia haver ciência ou comércio abrangente, mas com ela, dadas as condições adequadas, a ciência e o comércio irão evoluir. A ciência se torna possível porque, no fundo, envolve comparações entre quantidades, e cada relação [ratio] é numérica – daí a racio-nalidade da ciência. Do mesmo modo, o comércio global se torna possível, porque depende do preço numérico e da contabilidade de débito, crédito, inventário e transações. As mudanças que ocorrem constantemente nos preços coordenam todo o mundo da atividade econômica.

A ciência não é o meu foco aqui; essa não é a asa que se arrasta. Nossa asa que se arrasta agora tem a ver com nossas relações interpessoais, e uma parte fundamental dessas relações – a parte de regeneração e crescimento – é o comércio. Você se recorda da passagem do Salmo na qual a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a essencial pedra angular? O comércio é essa pedra angular. Nós o valorizamos muito pouco e o depreciamos demais. Alfred North Whitehead definiu, certa vez, a civilização como a “vitória da persuasão sobre a força”. Ele explicou, dizendo: “O comércio é o grande exemplo de relacionamento a caminho da persuasão. Guerra, escravidão e compulsão governamental exemplificam o reinado da força “([1933] 1967, 83).

O comércio se desenvolveu à medida que as pessoas aprenderam a equilibrar suas contas numericamente, possibilitando-as fazer negócios com estranhos – pessoas de diferentes linhagens, clãs e aldeias. Números tornaram possível equalizar e completar uma transação, pois sem números e preços há sempre algo que sobra de um lado ou de outro. Ao lidar com familiares (a linguagem sob o tribalismo, a propósito, é a de doar em vez de comprar e vender), o desequilíbrio não importa, uma vez que ao longo da vida ou de um período similarmente prolongado de reciprocidade, tudo se equilibra. Com o advento da contabilidade, no entanto, cada transação pode ser completa em si mesma. As partes podem sair satisfeitas, mesmo quando não há expectativa de que uma volte a ver a outra novamente. Então, pela primeira vez, fomos capazes de fazer negócios com pessoas que não conhecemos. Isso dissolve a tensão superficial das pequenas sociedades tribais enquanto gotículas antagônicas e torna possível o sistema mundial de serviços recíprocos que hoje nos dá maior longevidade e uma vida mais confortável e criativa.

A Terra Como Um Objeto do Comércio

O comércio é central para a linha de pensamento que se desenrola aqui, mas não é apenas o comércio de qualquer das coisas comuns que encontramos no mercado. Mais especificamente, vamos nos concentrar no comércio de terra. Todos estamos familiarizados com o crescimento e desenvolvimento de outros tipos de comércio, mas o comércio de terra ficou para trás em comparação com a maioria das outras áreas do mercado. Uma das possíveis razões para o seu atraso é que, na Europa, antes das revoluções dos séculos XVIII e primórdios do XIX, a terra, em grande medida, não era livre, não de forma irrestrita, para se tornar objeto de comércio. Não podia ser comprada e vendida no mercado. Essa situação mudou apenas quando as referidas revoluções provocaram uma separação entre terra e estado. Indiscutivelmente, esta mudança pouco assinalada pelos historiadores foi um dos eventos mais importantes da Idade Moderna. Até que acontecesse, a terra no Oeste Europeu não era livre para ser negociada como eram outras coisas, mas estava atada a restrições como a Primogenitura e o Morgadio e era parte da administração do governo. Somente quando as revoluções que varreram a Europa e despojaram a nobreza intitulada de seu poder político sem, contudo, despojá-la da propriedade das suas terras, pôde a terra se tornar uma commodity como outras coisas e, assim, ser usada como capital produtivo.

A nobreza intitulada, no entanto, tendia a não ser empreendedora. Ela já havia sido o governo e sua ética militava contra macular suas mãos com o comércio. Jane Jacobs, em seu Systems for Survival (1992), esclarece maravilhosamente o porquê dessa ética ter prevalecido. Assim, uma abordagem verdadeiramente empresarial da propriedade da terra teve um início tardio e um desenvolvimento vagaroso. Mesmo hoje, a maioria dos proprietários de terra mantém seus negócios imobiliários como uma via secundária, frequentemente visando a complementar uma pensão ou outro rendimento de aposentadoria, com pouca ou nenhuma compreensão sobre o negócio em que se encontram.

A Lógica Econômica da Administração da Terra Como Capital Produtivo

A lógica econômica da administração da terra como capital produtivo foi, pela primeira vez, claramente elucidada por Spencer Heath (1936) e deriva do fato de que serviços públicos, coisas usufruídas em comum em vez de separadamente e afastadas umas das outras, coisas como ruas, segurança pública e outras comodidades comunitárias, são funcionalidades ambientais. Ao contrário de outros bens e serviços, os quais podem ser fornecidos a consumidores individuais onde quer que estejam, bens e serviços ambientais são fornecidos a locais, e os indivíduos obtêm acesso a estes bens e serviços ocupando locais onde sejam oferecidos. As pessoas devem se deslocar para onde os serviços estão. É por isso que a localização [ou entorno] é o determinante do valor de um local. Sendo os serviços públicos parte integrante do ambiente de um dado local, quando proprietários de terra arrendam ou vendem locais, funcionam como fornecedores de mercado desses serviços públicos e de outros incentivos locacionais.

Apenas desta forma, serviços públicos podem ser distribuídos como outros bens e serviços são, isto é, através do processo de mercado. Somente através da convenção da propriedade sobre a terra, eles podem ser distribuídos de forma livre e equitativa por contrato – que é isonômico na tradição de liberdade do tribalismo – em vez de favor e privilégio, a corrosiva relação, independente da denominação, entre governantes e governados. Essa função alocativa, destinando locais para as mãos dos membros mais produtivos da sociedade (já que estes podem oferecer mais pelos locais), é o serviço mínimo realizado pelo proprietário e, por isso, ele ou ela é recompensado em preço ou aluguel. Tradicionalmente, os proprietários de terra fizeram pouco mais do que isso; eles têm distribuído tais serviços públicos e amenidades enquanto existam, mas não os têm produzido.

Contudo, em um incipiente setor do mercado isso está mudando, uma vez que proprietários privados realizam a produção, bem como a distribuição de bens públicos. Por exemplo, no século passado, em vez de permanecerem no antigo padrão de lotes subdivididos na Main Street, a maioria das lojas de varejo e filiais nos Estados Unidos mudou-se para situações em que a terra era organizada e gerenciada sob uma titularidade única, e os proprietários (os quais poderiam ser vários por meio de quotas indivisíveis) ofereciam muitos dos serviços, tais como ruas e estacionamento, rede de esgoto e distribuição de energia, policiamento, áreas públicas ajardinadas e assim por diante, que anteriormente haviam sido fornecidos pelo governo com a receita de impostos. Esses shopping centers estão entre os exemplos mais proeminentes daquilo que os profissionais do setor imobiliário chamam de “propriedades arrendatárias de múltiplos inquilinos” e que, às vezes, chamo de “comunidades empresariais” – já que nestas os serviços comunitários são fornecidos privada e competitivamente enquanto iniciativas com fins lucrativos. O varejo não estava sozinho na adoção dessa fórmula; o mesmo aconteceu com um amplo espectro de usos da terra – recreacionais, industriais, profissionais, médicos e alguns usos residenciais.

A fórmula do negócio é que os proprietários de um terreno invistam em melhorá-lo de maneiras que criem, para cada um dos locais arrendados nos quais está loteado, um ambiente ideal para o uso pretendido. A competição entre os gestores das propriedades, então, faz cair os aluguéis solicitados, enquanto a competição entre possíveis inquilinos faz aumentar os aluguéis que estes últimos estão dispostos a pagar. Na medida em que os proprietários sejam bem-sucedidos em criar um ambiente atraente para os locais que são oferecidos ao público, os aluguéis não apenas financiam os serviços comuns, ou públicos, naquele local, mas também geram lucro. Como essas comunidades empresariais geram receita, elas são financeiramente autossustentáveis; elas não precisam se tornar obsoletas como as ruínas da antiguidade. Uma vez que produzem renda, elas serão mantidas; elas serão renovadas, reconstruídas ou, mesmo, substituídas, conforme for necessário para que o capital permaneça competitivo e produtivo.

Comunidades empresariais são recém-chegadas no mundo em evolução dos negócios. Elas representam uma fatia ainda mais fina da história registrada do que a história registrada representa do período total da existência do homem na Terra. Evoluindo de forma rudimentar no século XIX, elas floresceram no século XX. A partir do segundo quarto do século XIX e acelerando especialmente após a Segunda Guerra Mundial, elas evoluíram e proliferaram em número, tipo, tamanho e complexidade à medida que empreendedores nesse novo tipo de negócio criaram uma miríade de ambientes adaptados à clientela com necessidades especializadas – comerciantes, viajantes, fabricantes, residentes e profissionais de todas as variedades. Cada tipo especializado de ambiente que alçou sucesso no mercado definiu um novo nicho econômico. Assim, em sucessão, vimos a ascensão de hotéis, prédios de apartamentos, prédios de escritórios (popularmente chamados de “arranha-céus” quando a invenção do elevador tornou o arranha-céu viável), transatlânticos de luxo, centros comerciais e shoppings; parques de motorhome, marinas, parques tecnológicos, parques profissionais, clínicas médicas e parques temáticos – bem como, cada vez mais, integrações e combinações destes para formar propriedades mais complexas e, sobretudo, menos especializadas. À medida que se tornam mais abrangentes, elas se aproximam do que é popularmente reconhecido como uma comunidade, ou mesmo, uma cidade.

Além disso, a rapidez desse desenvolvimento tem sido dramática. A título ilustrativo, o centro comercial ao final da Segunda Guerra Mundial era experimental. Havia menos de uma dúzia; até o nome ainda estava por ser cunhado. Hoje, existem mais de 50.000 só nos Estados Unidos, acomodando mais da metade do comércio varejista do país.

Cada tipo de comunidade empresarial possui necessidades de gerenciamento determinadas pelo mercado específico ao qual atende. O shopping center, por exemplo, deve compor uma competente equipe de varejo. Todo time precisa de um treinador e, no shopping, ele é o gerente. Seu papel inclui manter a paz e fomentar a cooperação entre um grupo altamente competitivo de comerciantes. Os comerciantes reconhecem que ele está singularmente posicionado para preencher esse papel, uma vez que, representando o interesse fundado na terra, ele é ao mesmo tempo imparcial e interessado no todo. Ao contrário dos inquilinos a quem ele serve, que são inevitavelmente partidários e, sendo assim, têm incentivo para explorar o centro comercial como um recurso público [comunal; sem dono], seu interesse comercial é o sucesso do centro como um todo.

Do ponto de vista da evolução social, é intrigante que as necessidades de gestão das comunidades empresariais sejam indistinguíveis, em princípio, das exigências administrativas daquilo que geralmente consideramos como comunidades. Basicamente, comunidades empresariais diferem da imagem popular que se faz das comunidades apenas na maior especialização – a menor heterogeneidade – de seus membros. Taxas de rotatividade populacional e riqueza de interação não são consistentemente diferentes. Além disso, a tendência inconfundível ao longo do último meio século tem sido em direção ao aumento de tamanho e complexidade – movendo-se na direção de se tornarem comunidades no sentido usualmente aceito do termo. Dificilmente seria um desvio radical hoje, se as leis tributárias assim permitirem, que um empreendedor imobiliário desenvolvesse uma nova cidade com base em arrendamento de terrenos como um investimento de longo prazo visando a renda. Em vez de ser estruturada politicamente, o que significa dizer que é financiada por impostos, essa comunidade seria totalmente autossustentada pela receita voluntária do mercado, com sua administração pública gerando dividendos para seus investidores.

Spencer Heath, certa vez, argumentou que se uma nova cidade fosse desenvolvida sob propriedade unificada da terra e fosse loteada por meio de arrendamentos a longo prazo, em vez de subdividida, teríamos uma comunidade proprietária parecida, em princípio, com um hotel estendido ao ar livre e em grande escala. Como no hotel, haveria um interesse empresarial concentrado no todo. Tendo em vista o tamanho e a complexidade de alguns hotéis contemporâneos, sua sugestão de que os hotéis possam ser protótipos de cidades do futuro é mais crível hoje do que quando ele escreveu pela primeira vez sobre a ideia, há mais de oitenta anos. O MGM Grand em Las Vegas, de maneira alguma o maior, promove-se como uma cidade autossuficiente. E aproxima-se de uma comunidade verdadeiramente abrangente, pois inclui shoppings, escritórios profissionais, instalações para convenções, restaurantes e cafés, uma capela, teatros e galerias de arte, serviços médicos, uma força de segurança, uma estação de monotrilho e a lista continua. Quanto ao tamanho da população, seus hóspedes diários, inquilinos varejistas e profissionais, funcionários e visitantes o tornam maior do que as cidades de Filadélfia, Nova York ou Boston na época em que os Estados Unidos conquistaram sua independência da Inglaterra.

Teoria da Comunidade Empresarial: Henry George, Ebenezer Howard, Spencer Heath

Nenhum corpo estabelecido de teoria aborda, até o momento, a proliferação de propriedades arrendatárias multi-inquilino com a sua intrigante promessa de amadurecer em comunidades completas. Tal teoria, como existe, foi desenvolvida durante o século XIX e começo do século XX por pessoas de fora da academia, cujos trabalhos e escritos são hoje pouco conhecidos. Entre os mais proeminentes estavam Henry George (1839-1897), Ebenezer Howard (1850-1928) e Spencer Heath (1876-1963).

Henry George, um economista, cientista político e orador verdadeiramente memorável, fez um grande contributo no final do século XIX. Ele teve predecessores renomados, entre outros, William Ogilvie, Thomas Spence, Patrick Edward Dove e o precoce Herbert Spencer. Mas ninguém se aproximou do vigor com que ele divulgou a ideia de que renda fundiária – receita da terra – constitui uma fonte “naturalmente ordenada” para o financiamento de todos os serviços públicos. Infelizmente, o método que ele aventou para aplicar o princípio era que o governo coletasse essas rendas, deixando proprietários de terra fora da cena. Portanto, as comunidades georgistas, em teoria, não seriam proprietárias nem, de modo algum, competitivas ou empresariais. Sua confiança nos poderes coercivos do governo, sua “pegada política”, pode explicar, enquanto fator individual, o porquê de seu argumento da terra ter caído no esquecimento. O economista Fred Foldvary em seu Public Goods and Private Communities: The Market Provision of Social Services apenas agora, um século mais tarde, começou a reintroduzir na discussão pública e acadêmica o relacionamento entre renda da terra e serviços públicos.

Ebenezer Howard era um inglês prático e modesto e, como Henry George, um visionário social de extraordinária intuição. Apesar de seus parcos recursos pessoais, ele fundou o movimento Cidade Jardim [Garden City] da Inglaterra e foi responsável pelo desenvolvimento bem-sucedido de duas cidades na área rural fora de Londres. Atualmente, Letchworth e Welwyn são pequenas, mas prósperas cidades financiadas por rendas de terra, e, até onde sei, nem um centavo de imposto jamais foi cobrado em qualquer uma delas. Pelo contrário, o governo trabalhista britânico, ao nacionalizar ambas as cidades após a Segunda Guerra Mundial (uma empresa privada ser proprietária de uma cidade estava inteiramente fora de linha com a ideologia política da época) ficou constrangido pelo fluxo de renda que ele próprio recebeu; não sendo empreendedor, não sabia o que fazer com o dinheiro. Embora Howard não tenha visto Henry George olho no olho, afastando-se do governo o máximo que pôde, ele, não obstante, considerava suas “cidades-jardim” a aplicação natural do ideal Georgiano de emancipar da tributação toda a produção e financiar os serviços públicos com rendas da terra.

Estranhamente, esta parte mais significativa do trabalho de Ebenezer Howard caiu em esquecimento ainda maior do que as ideias de Henry George. A inovação de financiar a comunidade a partir da remuneração privada da terra, desta forma, dispensando totalmente a tributação local, foi esquecida na literatura de planejamento urbano. Seu Garden Cities of Tomorrow ([1902] 1965) juntou-se à categoria dos clássicos de pedestal não lidos. As inovações puramente físicas de suas cidades, por outro lado, como design e controle de densidade, zoneamento funcional e cinturão verde são amplamente copiadas. Mas, aquilo que ele próprio pode ter desejado que fosse sua contribuição mais duradoura, está esquecido.

Howard, no início, não estava decidido se as suas cidades-jardim deveriam ser estruturadas como iniciativas empresariais ou, alternativamente, como organizações sem fins lucrativos. Contudo, para garantir a boa vontade dos Socialistas Fabianos, como George Bernard Shaw, que estavam entre seus principais incentivadores, ele escolheu o último caminho. Todavia, seu contador, C. B. Purdom, escrevendo em anos posteriores, atribuiu a lentidão das duas cidades para sair do projeto e a falta geral de visão de sua subsequente administração à ausência de qualquer provisão de capital próprio nos empreendimentos (1949, 345). Tal mediocridade de gestão pode explicar o porquê de as duas cidades permanecerem obscuras ainda hoje. Elas não fizeram muito mais do que proporcionar um ambiente de vivência atraente para 80.000 pessoas! Como melancolicamente escreveu um entusiasta:

Howard e seus associados cometeram um erro de propaganda ao posicionar Letchworth e Welwyn – construindo-as na Inglaterra, a apenas uma hora de viagem de Londres. Uma deveria ter sido construída em alguma ilha remota, como Maurício, e a outra na República Soviética do Uzbequistão. Os urbanistas e jornalistas as visitariam e as elogiariam, e teríamos muitos livros esclarecedores sobre elas. Também estaríamos encantados com suas realizações maravilhosas e querendo saber por que não poderíamos ter novas cidades do mesmo tipo na estagnada Inglaterra. (Osborne 1946: 36)

Spencer Heath foi engenheiro profissional, experiente advogado de patentes, fabricante, poeta, horticultor e, por fim, filósofo da ciência e pensador social, produzindo seu principal trabalho durante os anos do New Deal de Roosevelt, uma era de governo crescente na América. O fato de ele não ter sido acadêmico e de ter sido “politicamente incorreto” pode ajudar a explicar o porquê de suas teorias sociais terem recebido pouca atenção. O ponto de virada no seu pensamento ocorreu no início da década de 1930, quando concluiu que a propriedade era a alternativa evoluída à política. Em 1936, ele mesmo publicou uma monografia, Politics Versus Proprietorship, na qual ele expôs, pela primeira vez sob a forma impressa, a lógica da comunidade empresarial.

A genialidade de Spencer Heath foi perceber que o programa de Henry George, que eliminaria toda a tributação da produção privada e financiaria os serviços públicos através de rendas da terra (daí o nome “Imposto Único”), era profundamente condizente com o interesse dos proprietários de terras. Pois, se os proprietários de terras assumissem todos os custos da administração pública, liberando assim a produção privada da tributação e da pesada regulamentação, a produtividade aumentaria, locais e recursos entrariam em elevada demanda devido ao aumento da atividade comercial e as resultantes rendas da terra mais altas cobririam os custos do governo com uma margem de lucro para os proprietários de terras. Ele acreditava que empreendedores esclarecidos do setor imobiliário assumiriam a dianteira na remoção de impostos incidentes sobre a indústria privada e, em seu próprio interesse, arcariam com os custos do governo. Heath completou o conceito de Howard, provendo-lhe de uma força-motriz empreendedora. Ao visualizar proprietários de terras assumindo responsabilidade por funções governamentais, ele antecipou o negócio público tornando-se negócio privado – um importante novo campo de investimento e iniciativa empresarial.

Paradigma da Sociedade Evoluída

Se pincelarmos imagens do futuro com um pincel amplo o suficiente, frequentemente poderemos abranger o tema e nos encontrarmos “corretos”. No entanto, as previsões mais interessantes, por mais difíceis que sejam, são aquelas que entram em detalhes. Estou confiante em prever que a administração da comunidade empresarial substituirá a política e, embora o momento em que ocorrerá não deva ser considerado como parte da previsão, eu não ficaria surpreso se isso acontecesse durante a vida de alguns que estão vivos hoje. Calendário à parte, portanto, o quadro geral que visualizo é aquele no qual comunidades financeiramente autossustentáveis ​​serão a norma – enclaves empresariais, em vez de subdivisão, como forma escolhida para a ocupação e uso da terra para fins comerciais, industriais e residenciais. Tributação, licenciamento, regulamentação burocrática onerosa e outras restrições à livre iniciativa farão parte do passado. O estado irá murchar, para tomar emprestada a imagem de Marx, à medida que suas funções forem progressivamente melhor servidas por um mercado em constante evolução.

Previsões mais detalhadas são capazes de me fazer encalhar. Consciente do perigo, no entanto, estou disposto a arriscar respostas a estas perguntas frequentes.

O que poderá acontecer com as fronteiras nacionais?

Já perdendo proeminência devido ao crescimento do ciberespaço, vejo as fronteiras nacionais se tornando relíquias do passado. Por critérios práticos, fronteiras entre federações de comunidades autônomas podem surgir de acordo com características naturais como corpos de água, montanhas ou relações culturais, linguísticas, entre outras. A visão de Jane Jacobs de que os agrupamentos naturais da sociedade são cidades e não estados-nação deve se tornar cada vez mais óbvia.

Quão grandes podem ser as comunidades?

O tamanho necessariamente será determinado por considerações de mercado. Exceto, talvez, por uma ou outra situação altamente transitória ou especializada, eu suspeito que, como na sociedade tribal, o “tamanho ideal”, por razões de gestão, não será superior à maior comunidade “face a face”, ou seja, não mais do que alguns milhares de pessoas, em que um gerente pode reconhecer todos os membros de vista. Em níveis sucessivos, tais comunidades empresariais irão se associar, informalmente ou não, como as redes ou empresas franqueadas fazem hoje, para realizar funções que são melhor administradas pela cooperação em níveis mais altos. As preferências do consumidor sempre determinarão. Algumas comunidades se amontoarão, resultando em aglomerações urbanas de alta densidade populacional, enquanto outras serão rurais. Inevitavelmente, haverá combinações complexas de comunidades de diferentes tipos e especialidades, menores sublocadas dentro da matriz de outras progressivamente maiores, da mesma forma que tipos diferentes de átomos são mutuamente atraídos para formar moléculas complexas, e moléculas para formar células etc.

As comunidades serão todas iguais?

É mais do que provável que haja uma variedade muito superior a qualquer coisa vista hoje, pois as comunidades se especializam para atrair todos os gostos, cada uma descobrindo seu nicho ecológico em uma economia global em constante mudança e evolução. Comunidades empresariais, mesmo hoje, variam muito dentro de um só segmento. Conte, por exemplo, os diferentes tipos de hotéis. Existe apart-hotel, resort, hostel, dormitório, cassino, cinco estrelas ou econômico, entre outros, com subcategorias e híbridos de cada um.

Será uma sociedade democrática?

A palavra democracia, tão bem resumida por E.C. Riegel (1978: 77-81), tem dois significados. Pode significar autonomia individual, onde todos são iguais em sua autoridade sobre sua pessoa e propriedade, ou pode se referir a um processo de tomada de decisão política cujo resultado é determinado pelo voto. Diz-se que Jonathan Swift certa vez comentou sobre o segundo tipo de democracia, ironicamente dizendo que “algumas pessoas não têm ideia melhor sobre como distinguir o certo do errado do que pela contagem de narizes”.

A votação política, enquanto que tem por finalidade, e, muitas vezes, durante um tempo, por efeito, a moderação da autocracia, implica que as pessoas se juntem umas contra às outras. Não é um processo proprietário. Para os perdedores, ser governado por uma maioria votante pode ser tão opressivo quanto o regime mais autocrático. Na subdivisão da terra, onde inexiste autoridade responsável devido à fragmentação da titularidade da terra, muitas vezes, não sobra opção aos residentes a não ser recorrer à votação, aí onde encontramos a semente do estado.

As subdivisões administradas pela associação de proprietários contrastam fortemente com as comunidades empresarias. O conselho da associação é encarregado de manter as ruas, outras áreas comuns e amenidades, além de impor um estilo de vida comum aos moradores de acordo com um padrão pré-estabelecido. Uma parte importante de seu papel é reforçar as cláusulas restritivas na escritura. Assim sendo, à parte seu papel de manutenção, é fundamentalmente um arranjo de policiamento. A comunidade empresarial, por outro lado, procura criar um ambiente de convivência que atraia o patronato. Aquiescência e patronato são objetivos muito diferentes, e a psicologia varia em conformidade a isto. No primeiro, os residentes estão sujeitos às restrições de escritura e são, portanto, literalmente, sujeitos. No outro, os moradores são clientes – na verdade, patronos. Além disso, o conselho da associação deve ser inflexível para ser eficaz, enquanto o empreendedor, dentro do seu quadro de regras, deve ser flexível e conciliatório, julgando os casos individualmente pelo seu mérito (MacCallum 2010).

As associações de proprietários costumam ser chamadas de democráticas, já que a tomada de decisões é realizada pelo voto. Mas as comunidades empresariais não são menos democráticas, no sentido de que seus moradores votam a cada vez que pagam seu aluguel [a renda da terra]. A diferença é que, no primeiro, cada indivíduo deposita votos não apenas para si mesmo, mas também para os outros, determinando questões que afetam também aos outros. Já no último, cada um deposita votos apenas para si mesmo. Esses hábitos contrastantes refletem significados muito diferentes da mesma palavra.

A subdivisão e o arrendamento irão, sem dúvida, coexistir bem no futuro e, portanto, os dois tipos de democracia também. Embora a escolha entre os dois seja determinado pela preferência de mercado, a forma plenamente proprietária e apolítica provavelmente prevalecerá. Uma boa razão para isso é que o arrendamento permite a remodelação flexível e contínua, mesmo para o layout das ruas e outras áreas comuns, sem infringir os direitos de propriedade, e isso é uma vantagem indiscutível em um mundo de rápidas mudanças tecnológicas. A razão fundamental, no entanto, é que o arrendamento possibilita que uma comunidade seja conduzida como um empreendimento comercial. A dependência que uma empresa tem do lucro proporciona uma medida importante de proteção contra a arbitrariedade, algo não encontrado no arranjo da subdivisão (MacCallum 1996, 18: II.D.6 e nota de rodapé 6), e traz para a provisão de serviços públicos uma dinâmica que está em falta nas comunidades subdivididas.

Será como o feudalismo?

Não feudalismo, mas manorialismo; os termos são frequentemente confundidos. O manorialismo é uma forma de organização social agrária, ao passo que o feudalismo é uma ordem militar que lhe é imposta, muitas vezes por conquista, os dois, nesse caso, se tornando amplamente fundidos. O feudalismo normando foi imposto à Inglaterra predominantemente manorial após 1066.

Se a questão é se as comunidades empresariais se pareceriam com o manorialismo, a resposta é sim, mas com um esclarecimento. Embora fosse estruturado de maneira semelhante, o manorialismo não progrediu. A razão, presumivelmente, é que foi antes do seu tempo.

Um de meus professores da Universidade de Chicago, Sol Tax, certa vez realizou um trabalho de campo nas terras altas da Guatemala e escreveu um livro chamado Penny Capitalism. Ele descreveu um sistema de mercados indígenas que eram puramente laissez-faire na melhor tradição de Adam Smith e, aparentemente, existiam desde os tempos pré-espanhóis. A pergunta que ele fez foi: se essas pessoas têm essa liberdade, por que não são ricas? A resposta que ele sugeriu foi que a criação significativa de riqueza requer muito mais do que apenas liberdade das restrições. Requer o complexo desenvolvimento institucional de uma sociedade de mercado. Na sociedade nativa guatemalteca, a empresa não havia se desenvolvido, carecia, pois, do leque de fenômenos de mercado que dão suporte e dos quais uma empresa depende enormemente, como um sistema de preços mundial, setor bancário e financeiro, seguros e assim por diante. A unidade de produção era a família e não a empresa.

A distinção entre empresa e família é crucial. As empresas são impessoais, no sentido de que possuem objetivos bem definidos e especializados, recrutam com base na capacidade e experiência e são inequivocamente orientadas para o mercado. Famílias, por outro lado, têm necessariamente agendas complexas nas quais, por exemplo, lazer, casamento ou prestar condolências a membros falecidos podem superar qualquer outra coisa. Elas não podem recrutar ou demitir, exceto de maneira limitada, por meio de casamento ou divórcio, ou reconhecendo laços familiares ampliados; elas devem acomodar a velha tia Flora e o irascível primo John.

Arranjos manoriais eram empreendimentos familiares e não-comerciais segundo a perspectiva de hoje. Devido à sua natureza mais evoluída e ao fato de operar em um ambiente completamente diferente, isto é, uma economia global competitiva com instituições financeiras e de serviços interligadas e solidárias de todos os tipos, uma comunidade empresarial fará coisas que o senhorio medieval não poderia sequer sonhar. Cometeremos um erro fundamental se tentarmos entender a totalidade da comunidade empresarial em termos do manorialismo medieval ou da aldeia tribal.

O que pode impedir gestores de comunidades empresariais de se tornarem tiranos?

Olhe em volta, o que nós vemos? Se pesquisarmos os registros das centenas de milhares de negócios hoje, poderemos encontrar histórias de horror, mas elas seriam excepcionais e de curta duração. Anos atrás, fiz um estudo de campo sobre os tipos de situações problemáticas que surgem em parques de motorhomes e centros comerciais e como elas eram tratadas (1971). No decorrer do estudo, interessantes histórias de casos apareceram, mas nenhuma foi uma história de horror. O fato é que os empresários, em sua maioria, cuidam de seus clientes, pois é assim que eles permanecem no negócio. Se eles se tornam negligentes, estão fora do mercado ou, então, alguém compra o negócio e restaura sua lucratividade.

Em contraste, não precisamos saber muito a respeito das comunidades políticas; nós praticamente sabemos o que esperar delas. Mas não devemos procurar a consistência perfeita em qualquer categoria, política ou econômica, pois até o céu teve seu Lúcifer. O que conta é o comportamento característico que podemos esperar da empresa, que tem como premissa o serviço, em contraste com o empreendimento político, cuja natureza é predatória. Qualquer um dos dois pode abstrair-se de seu papel ocasionalmente, mas essas exceções apontam para a regra.

Como a tomada de decisões ocorrerá em nível global?

Vislumbro a difusão de comunidades empresariais autônomas de dimensão pequena a razoável ao redor do planeta, muitas aqui e ali aglutinando-se em uma grande variedade de formas para compor aglomerações populacionais mais densas. Elas se assemelharão ao que, na antropologia, são denominadas de sociedades “acéfalas” ou “sem estado”, cooperando informalmente em vários níveis por meio de trabalho em rede. Por essa visão, sou grato à falecida antropóloga Virginia H. Hine (1977: 1984).

E quanto aos indivíduos que podem preferir a compra a um aluguel de terreno?

Pelo menos no presente, e quem sabe por quanto tempo no futuro, a ideia de possuir o próprio terreno agrada a muitas pessoas. Onde há uma demanda, o mercado geralmente encontra uma maneira de prover. Algumas comunidades, sem dúvida, oferecerão aproximações da subdivisão [isto é, da compra do terreno] através do uso de arrendamentos de longo prazo, incluindo arrendamentos perpétuos, arrendamentos pagos em adiantado e propriedades vitalícias. Mas, na prática, algo como a propriedade alodial [terra cujo proprietário detém posse absoluta, na qual a propriedade é mantida com absoluta independência, sem estar sujeita a qualquer arrendamento, serviço ou reconhecimento de um superior] provavelmente estará disponível na maior parte do mundo enquanto alguém se preocupar em olhar para o futuro.

Mas o incentivo ao lucro não está guiando tudo isso?

Sim, é o incentivo que torna qualquer empresa autossustentável – duradoura porque serve. O comércio é muito desvalorizado e subestimado. A grande e crescente tendência hoje é que a terra seja administrada como capital produtivo e, nesse processo, estamos testemunhando a evolução natural dos arrendamentos de terra – precisamente o que Henry George, Ralph Borsodi e outros propuseram como a cura para a especulação fundiária excessiva. Mas eles não viram a própria cura se tornar um processo espontâneo de mercado, impulsionada por incentivos comerciais comuns, voltados ao lucro. Parece estranho que ninguém antes de Spencer Heath tenha antecipado isso acontecendo dessa maneira.

Também ao nível individual, a motivação do lucro é pouco compreendida. Mais frequentemente do que nunca, grande parte da motivação de um empresário de sucesso é estética. Enquanto a motivação para o lucro é frequentemente retratada como um apego friamente calculista à lucratividade, os empresários mais bem-sucedidos são apaixonados pelo que fazem. Eles veem os negócios como um jogo desafiador e um esforço criativo. Um jogo requer um cartão de pontuação para permitir que os jogadores saibam o quão bem eles estão indo – e o lucro é esse cartão de pontuação. Como em qualquer outra empresa, a operação exitosa de uma comunidade empresarial exige que a autoridade proprietária tome decisões e aja com responsabilidade sobre essas decisões. Também exige que haja a possibilidade de obtenção de lucro para que o jogo, neste caso uma comunidade que atrai e mantenha seus clientes, possa continuar. Esse é um desafio gratificante para aqueles vocacionados ao empreendedorismo. Todos esses elementos do jogo estão presentes na comunidade empresarial.

Por que tais mudanças radicais estão acontecendo rapidamente, em vez de gradualmente por um longo período?

Sabemos a partir da história que quando as condições são adequadas para um novo tipo de desenvolvimento, tal desenvolvimento pode acontecer muito rapidamente. Neste caso, precisamos apenas lembrar do papel crucial do cálculo numérico para o desenvolvimento da ciência e do comércio e, então, observarmos que algo espetacular está acontecendo hoje. O uso de computadores aumentou nossa capacidade de manipular não apenas números, mas informações de todos os tipos por ordens de magnitude, e essa capacidade tem progredido a uma taxa exponencial. Além disso, o computador pessoal e a publicação eletrônica, ao trazer as bibliotecas do mundo para o lar e possibilitar o trabalho onde quer que se esteja, está dando poder às pessoas enquanto indivíduos e possibilitando um êxodo da arregimentação da força de trabalho. Há, dentro do mercado, um processo de descentralização de magnitude inspiradora.

Por esta razão, dentre outras, contanto que a humanidade sobreviva ao curto prazo, a comunidade empresarial poderá se tornar a forma escolhida de comunidade dentro de algumas gerações. Nesta altura, se isso acontecer, não seremos abandonados ao governo como o conhecemos hoje. De forma simples e sem alarde, teremos superado isso, e o pessoal do governo será absorvido em empregos mais produtivos. A sociedade humana, que no nível tribal manifestou o padrão social normal, embora em um estágio imaturo, terá amadurecido e se revelado. A humanidade terá finalmente vencido este degrau na escada da evolução social.

Tradução: Pedro Dias
Revisão: Antônio Dias


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Spencer Heath MacCallum é antropólogo social e reside em Casas Grandes, Chihuahua, México.

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