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O Professor da Galileia: Um Profeta Que Realmente Viu

“Quão tentador”, escreveu alguns anos atrás o economista William H. Peterson, “é descobrir que praticamente todas as grandes religiões do mundo exaltam a Regra de Ouro, de uma forma ou de outra.” [1] Ele reproduziu as diferentes formulações que havia lido:

CRISTIANISMO
Faça aos outros como gostaria que fizessem a você.

JUDAÍSMO
Não faça ao seu semelhante o que é odioso para você.

ISLAMISMO
Ninguém é fiel até que deseje ao seu irmão o que deseja para si mesmo.

BUDISMO
Não prejudique os outros de formas que a si acharia prejudicial.

CONFUCIONISMO
Não faça aos outros o que não quer que façam a você.

A sabedoria comum é que todas as principais religiões ensinam a Regra de Ouro. Isso tem um apelo, porque nos fala da fraternidade do homem. Mas, em exame, essa noção popular não se encaixaria no grande cesto de noções que são amplamente, mas erroneamente, tidas como certas? Spencer Heath gostava de destacar que a versão positiva proposta pelo professor da Galileia era única – e que sua singularidade carregava profundas implicações. [2]

O preceito é: “Faça aos outros…”, enquanto outros grandes professores religiosos aconselharam que os homens desistissem – na verdade, que eles se abstivessem de fazer.

Aparentemente, uma pequena diferença? Mas quão dramática é a diferença! Ele anuncia a transição do mundo antigo, com suas muitas divisões tribais e interesses paroquiais, para a economia mundial em evolução de hoje. Esta economia está tornando nossas vidas mais longas e multiplicando vastamente nossos recursos e oportunidades para levarmos uma vida criativa, seguindo o exemplo estabelecido em Gênesis. O professor da Galiléia foi, sem dúvida, um profeta que realmente viu; dentre todos os preceitos religiosos do mundo, só ele é consonante com a livre iniciativa. A visão de todos os outros era de que os homens deveriam renunciar ao dano que fazem uns aos outros, para assim escaparem dos tormentos do mundo antigo. O Nazareno mostrou de uma maneira prática como fazer isso e muito mais. Ele mostrou como efetivamente superar o mal – suplantando-o com o bem.

O processo de livre mercado consiste em pessoas fazendo o bem umas às outras, não em abster-se de prejudicar o próximo, como aconselham outras religiões. Podemos ser plenamente obedientes a esses outros ensinamentos permanecendo em nossos caminhos enquanto nosso vizinho definha de fome. Esses outros ensinamentos são apenas bons conselhos nos limites de sua alçada, mas não conseguem superar o aforismo de Benjamin Franklin de que “a honestidade é a melhor política”. É preciso um pouco de reflexão para ver que apenas ser honesto não é tudo. Está incompleto como receita para a livre iniciativa. Sozinho, não faz história. Tampouco faz apenas desejando bem ao seu vizinho, como no exemplo islâmico de Peterson; por mais que seja um sentimento valioso, o desejo sozinho não faz acontecer.

Peterson chegou perto de ver a singularidade do preceito cristão quando designou o mercado como “a Regra de Ouro em ação”. Ele não poderia ter dito isso de nenhum dos outros preceitos.

Alguns preferem os preceitos negativos porque são expressamente negativos. Eles temem que o comando positivo possa abrir a porta para a malícia, que ele possa ser invocado para justificar a imposição da preferência de um aos outros. Será que eu, por exemplo, que gosto de leite coalhado, sou chamado a servi-lo a você, que o odeia? Qualquer interpretação desse tipo do preceito galileu torna sem sentido uma regra destinada a ser aplicada a todos. O mandamento do galileu admite apenas uma leitura que pode ser universalizada; apenas o como da obra, não o quê, pode ser aplicado universalmente. Assim, somos ordenados a fazer aos outros como gostaríamos que fizessem a nós, o que significa de uma certa maneira, isto é, tendo em conta os desejos da outra pessoa no que lhe diz respeito.

Então, o ensinamento do profeta da galileia requer duas coisas. Requer se esforçar pelos outros e requer conceder liberdade perfeita aos outros. Servir um ao outro em perfeita liberdade é o processo de mercado. Um serve outro, e esse serviço, se é verdadeiramente um serviço na mente do outro, induz uma reciprocidade, uma reciprocidade que é totalmente voluntária. Por isso, aqueles que praticam a Regra vivem mais e com maior abundância, como prometido na Santa Escritura.

Em contraste, não há como praticar a regra negativa. A versão positiva é a fórmula estrita para empresas privadas – a receita, em poucas palavras. Esta já foi alguma vez colocada de forma mais sucinta?

O ensino semelhante de Moisés, amar ao próximo como a si mesmo (Levítico 19:18) foi um precursor alinhado e, significativamente, também foi enunciado na forma positiva. Moisés, ao colocar o seu ensinamento em termos de intenção e não de ação, encontrava-se adequado a um tempo na experiência humana em que o grupo cooperante era pequeno e face-a-face, fortemente circunscrito pelas condições do parentesco. Sob tais circunstâncias, o nexo entre o sentimento e o comportamento recíproco era tão próximo a ponto de ser virtualmente inseparável. Mas hoje, embora cada um de nós continue a desfrutar de um círculo de familiares com quem interagimos em um plano íntimo e psicológico, o grupo cooperante não é mais familiar apenas. Pela evolução do processo de livre mercado – uma evolução que agora acelera a uma taxa exponencial – o grupo cooperante tornou-se global. Estamos aprendendo rapidamente como servir e sermos servidos por estranhos, pessoas que não conhecemos e que nunca esperamos conhecer. A regra antiga expressa em termos de sentimento subjetivo era apropriada entre os íntimos, mas não era capaz de trazer o estranho para dentro do círculo. O professor galileu superou essa limitação. Parece que ele de algum modo intuiu um destino criativo para a humanidade que foi pouco evidenciado em seus dias e ainda é apenas vagamente compreendido.

Outros anteciparam que há um destino para a humanidade, como Shelley em seu poema “Queen Mab”, ou o jurista Oliver Wendell Holmes quando escreveu: “Eu penso que não é improvável que o homem, como a larva que prepara um abrigo para o ser alado o qual nunca viu, mas que será – pode ter destinos cósmicos que ele não entende”. Mas o professor da Galileia articulou o valioso “como”, a forma para realizar esse destino – e deu-lhe um nome, “o reino do céu”.

É ainda mais inspirador, e um tanto extraordinário, quão amplamente a versão positiva da Regra de Ouro se harmoniza com o ensinamento judaico-cristão. Hoje, estamos vendo o fruto dessa regra: na medida em que os homens começaram a aprender como praticar a vontade divina universalmente, não apenas entre os íntimos, mas também com estranhos, até os confins da terra através do comércio, racional e impessoalmente, substituindo, assim, a regra de ferro com a de ouro, nós mais que dobramos nossa expectativa de vida, ao mesmo tempo em que melhoramos imensamente nossas condições de nossa vida. Cada vez mais, podemos ser criadores em nosso mundo – seguindo com capacidade cada vez maior o exemplo de Deus contado em Gênesis [a vida em paz, abundância e comunhão com Deus].

Um cético pode dizer que sim, os negócios têm todas essas qualidades. Mas também é voraz; os empresários geralmente não se unem para usar os poderes do governo para restringir a concorrência e explorar um ao outro? A resposta é que tal comportamento predatório, reconhecidamente comum, é não mais fazer negócio, da mesma forma que trapacear nas cartas é não mais jogar cartas. Nenhuma das tragédias que sofremos pode ser imputada aos negócios. Devidamente considerados, esses são os restos de antigas tiranias que estamos superando à medida que aprendemos a praticar a Regra de Ouro universalmente. As bênçãos que hoje recebemos em nossa vida social são devidas à prática disseminada dessa Regra, que nos exorta a amar não apenas como uma intenção, mas impessoalmente e, portanto, universalmente – no comportamento racional e medido do mercado.

Podemos agora apreciar, em um sentido mais amplo, a passagem em que Jesus, tendo anteriormente renegado o poder político quando foi tentado em seu retiro no deserto, gentilmente repreendeu seus seguidores por discutirem sobre quem seria o primeiro no reino dos céus:

“Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, sobre eles exercem autoridade, e que se denominam benfeitores os que exercem autoridade sobre eles; Mas dentre vós não será assim; antes, qualquer que dentre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.”

Por mais inconsciente que o empresário possa ser na prática da Regra de Ouro, em seu esforço para servir a clientela mais ampla possível, é ele, mais do que qualquer outro, que aspira a ser o “servo voluntário de todos”.

Se temos aqui uma interpretação razoável do evangelho de Jesus sobre o reino dos céus, por que a tradição cristã que chegou até nós – diferentemente da igreja cristã primitiva – enfatiza a vida após a morte, virtualmente excluindo a vida terrena? A história sugere a resposta. A aversão cristã primitiva à violência e à taxação era uma ameaça crescente ao domínio romano, e Constantino endereçou este problema usando um antigo estratagema político. Ele cooptou o cristianismo para o Império. Ele decretou o cristianismo como religião oficial e se apropriou de recursos públicos substanciais para a construção de igrejas e outras necessidades materiais. Daquele tempo em diante, o Império exerceu uma grande influência no desenvolvimento da Igreja. Como os governos políticos não vivem da Regra de Ouro, mas pelo domínio da espada de ferro – por tributação e guerra – o Império, desprovido de outro modo de sobrevivência, tinha pouca escolha a não ser relegar a noção do “reino dos céus” a um lugar remoto e distante.

Há muitos níveis em que se pode amar e apreciar o professor da Galileia. Spencer Heath pensava nele como um poeta e um profeta que realmente podia ver – alguém que teve uma intuição, divinamente inspirada, se preferir, do que aguardava a humanidade num futuro distante. Esse destino não seria simplesmente entregue aos homens. Ele requer um certo tipo de comportamento. E, como os Evangelhos deixam claro, o filho do carpinteiro tinha uma noção clara sobre qual era esse comportamento. Não foi um acidente da fraseologia que sua regra clame por um comportamento que, na medida em que os homens a praticam não apenas entre seus íntimos, mas universalmente com estranhos, conduz infalivelmente ao caminho de sua antecipação intuitiva, na Terra, de um “reino dos céus”. Hoje podemos começar a ver, embora, ainda através de um vidro sombrio, o que em seu tempo foi um futuro distante. No entanto, à medida que a visão se tornar mais nítida, ela nos inspirará a agir conscientemente e cada vez mais em nossa imagem divina.

Então, o que isso tem a ver com os cristãos libertários? Simplesmente que o princípio de não agressão (PNA) é bom até onde vai. Mas até onde vai? Que poder tem para inspirar? Não é criativo. Ele cai na categoria das versões negativas da Regra de Ouro – o que não quer dizer que ele possa ser, ou deva ser, descartado, porque está implícito na redação positiva. Está simplesmente incompleto. Portanto, vamos olhar além da mera não-agressão para o potencial positivo e criativo do mundo que está surgindo agora. Vamos olhar em frente para o princípio do criativismo, não fazendo aos outros o que achamos que eles deveriam querer, mas verdadeiramente servindo-os através do processo de livre mercado. Vamos nos tornar empreendedores com uma visão. Vamos entrar nos negócios com imaginação. A regra positiva de Jesus é o mandamento divino, se você desejar. É o caminho da vida.

 

Tradução : Pedro Dias


[1] William H. Peterson, “A Regra de Ouro e o Livre Mercado”, Ideas on Liberty, junho de 2000, páginas 48-49.

[2] A ideia deste artigo foi inspirada em Spencer Heath, Economics and the Spiritual Life of Free Men: The Chapman College Talks and Selected Essays; editado pelo autor, neto de Heath.


Spencer Heath MacCallum é antropólogo social e reside em Casas Grandes, Chihuahua, México.

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