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Do Zero ao 1: Governança Privada Como Um Serviço

Na virada deste século, os africanos serão 40% da população mundial. Com aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas, a população da África é, atualmente, inferior à da China. Nos próximos 80 anos, isso mudará de maneira incrível. Enquanto essa transformação ocorre, algo mais impressionante acontecerá; A África estará se urbanizando em níveis sem precedentes. Quase 20% da população urbana do mundo acabará vivendo em cidades africanas; são cerca de 2,5 bilhões de pessoas. Além disso, o contingente populacional urbano total da África provavelmente será de apenas 60% da sua população, contra os 86% nos EUA hoje. Acredito que a história da urbanização e do crescimento da população persistirá no século XXII, com o crescimento populacional começando a arrefecer à medida que a África se torna mais rica, mas com o crescimento da urbanização continuando bastante acelerado. De muitas maneiras, a história da África nos próximos dois séculos será aquela das cidades que se tornaram megacidades, por um lado, e das cidades completamente novas que serão construídas do zero, por outro. Espera-se que Lagos, na Nigéria, hoje com 20 milhões de habitantes, alcance 100 milhões em 2100. Lusaka, na Zâmbia, onde eu moro, hoje com 3 milhões de habitantes, pode superar 30 milhões em 2100. Em ambos os casos, duvido que os governos municipais ou centrais sejam capazes de financiar a implantação da infraestrutura necessária para tornar sustentável esse crescimento nas populações. Financiar ao mesmo tempo o crescimento e os atuais déficits seria um desafio insuperável. Em vez disso, acredito que o setor privado será o meio pelo qual o crescimento das populações urbanas na África se tornará não apenas sustentável, mas possível. A realidade alternativa seria o tipo de expansão urbana que consiste principalmente em favelas. Um futuro que acredito que a maioria das pessoas na África prefere não ver se desenrolar.

 

Nas próximas décadas, cada vez mais se verá o surgimento de uma nova forma de capitalismo: governança privada como um serviço. À medida que as cidades novas e existentes na África e na Ásia crescem a níveis nunca antes vistos, as estruturas de governança pública serão incapazes de gerenciar tal crescimento de maneira sustentável. A tendência já está começando a se cristalizar. Existem vários empreendimentos privados de cidades em toda a África; Appolonia City em Gana, Eko Atlantic na Nigéria, Nkwashi na Zâmbia, Waterfall City na África do Sul e Tatu City no Quênia. Esses desenvolvimentos buscam, em grande parte, estabelecer-se como soluções para os déficits de infraestrutura habitacional em seus países. A outra tendência emergente no contexto do urbanismo africano é o surgimento de zonas econômicas especiais (ZEE) no estilo chinês como forma de proporcionar diversificação e crescimento econômico. Os resultados, até agora, foram confusos. No entanto, isso não deve ser um motivo de pessimismo em relação ao modelo. Em geral, acredito que o desafio é que muitos dos projetos existentes não levaram em consideração as vantagens comparativas do país anfitrião. Além disso, eles não procuraram a autonomia que a cidade chinesa de Shenzhen alcançou quando foi criada como uma ZEE - o que foi um fator crítico de sucesso. Os países que o fizeram dessa forma geralmente obtiveram maior sucesso. A Etiópia está se tornando, cada vez mais, um estudo de caso. As Ilhas Maurícias, de certa forma, podem ser consideradas uma zona econômica especial em nível de país. No caso da Etiópia, a vantagem comparativa é certamente um fator determinante em seu sucesso na execução do modelo; no caso das Maurícias; a governança e o uso efetivo de instituições econômicas e políticas liberais são claramente a base de seu sucesso. As Maurícias estão utilizando o manual estabelecido por outra nação insular, Cingapura. Acredito que há muito a aprender com as experiências desses dois países africanos, e mais ainda no caso de Cingapura. Ou seja, utilizando vantagens comparativas existentes; e criando novas, o que inclui as estruturas de governança mais importantes que inspiram a confiança dos investidores.

 

Como co-fundador de uma empresa de desenvolvimento de cidades, esses conceitos são de grande importância para meus parceiros e para mim. Nós os cristalizamos em duas visões alternativas que resumem como as cidades africanas podem ser no futuro: ou a maioria das cidades se parecerá com Lagos, ou se parecerá com Cingapura. A realidade é que esperamos que elas se pareçam com as duas. Lagos é um ponto de referência para nós porque é uma megacidade (20 milhões de pessoas), mas enfrenta desafios significativos de infraestrutura; Cingapura é também uma referência porque representa o que é possível conseguir com montanhas de areia e cascalho e uma estratégia sólida para desenvolver novas economias. Dada a nossa visão de mundo, pela qual acreditamos que o setor privado seja o principal impulsionador do desenvolvimento urbano nos próximos 80 anos, acreditamos que, com o tempo, os atores privados deverão aspirar ao desenvolvimento de cidades ao estilo de Cingapura por todo o continente. Acreditamos que essas “chater cities” serão zonas econômicas especiais com autonomia parcial para aprovar estruturas de governança mais adequadas para atrair capital privado e trabalho para suas jurisdições. Essas cidades fornecerão, a seus residentes (famílias e empresas), governança privada e bens públicos como um serviço com fins lucrativos. Além disso, elas provavelmente competirão entre si por investimento e trabalho, levando a resultados positivos para esses dois grupos de atores [investidores e trabalhadores]; gerando externalidades positivas para seus países anfitriões e vínculos com cadeias de suprimentos, o que provocará aumento na demanda e nos serviços e, subsequentemente, um movimento ascendente da renda real etc. O surgimento dessas cidades também criará espaço fiscal para os governos melhorarem a cobertura de bens e serviços públicos às pessoas mais vulneráveis da sociedade.

 

Estou otimista de que, em geral, o surgimento de “chater cities” na África seja positivo. No entanto, também haverá resultados negativos. Inicialmente, modelos de negócios como esses provavelmente excluirão famílias de baixa renda, em grande parte devido à percepção de risco. Como tal, essas cidades podem ser vistas como enclaves para os relativamente ricos. No entanto, é provável que o impacto positivo nas economias dos países anfitriões aumente a renda ao longo do tempo, e, portanto, reduza o risco. Isso, provavelmente, permitirá uma cobertura maior dos serviços, atingindo grupos de faixa de renda mais amplos. Esse fator de risco é, em grande parte, uma consequência do acesso ao capital para os próprios desenvolvedores. Levantar o montante de capital para construir uma cidade é algo extremamente difícil. Basicamente, isso é o equivalente a levantar o capital para investir em computação no final dos anos 60. Para alguns do setor, a tendência para a computação onipresente era evidente, mas a comunidade de investimentos levou algum tempo para ver isso como um destino viável de investimento. Esse é o caso no momento. Os projetos de desenvolvimento urbano mais ambiciosos são amplamente financiados pelos governos, novamente, como a computação nas décadas de 50 e 60. Acreditamos que isso mudará nos próximos anos. O motivo é bem simples: os governos detêm os mais vantajosos “modelos de negócios” do mundo; essencialmente, eles têm poder sobre uma parte significativa de toda renda gerada por famílias e empresas em sua jurisdição. Em áreas onde atores privados podem prover governança privada consensual, o argumento comercial é simples: uma compra [de governança] financiada pelas entidades que residem em tal jurisdição — de forma contínua. Para colocar isso em perspectiva, supondo que a África alcance um PIB per capita de US$ 10.000 até 2100, e 60% disso seja gerado pelas cidades do continente; se as cidades privadas englobassem apenas 10% da população - e da produtividade da cidade do continente - isso representaria US$ 3 trilhões em PIB potencial hospedado por essas cidades - não se fazendo o ajuste ao crescimento futuro. Dada a extensão dos déficits de infraestrutura na África, acreditamos que, em última análise, a participação total da população atendida pelo setor privado provavelmente exceda 40% (Mais que US$ 12 trilhões em PIB potencial ou mais que 1 bilhão de pessoas até 2100).

 

O desenvolvimento de novas cidades traz oportunidades geralmente não existentes na maioria dos lugares do mundo. Isso inclui alavancar novas tecnologias para melhorar o bem-estar dos residentes; desde o uso de blockchain e contratos inteligentes para tornar a compra de propriedades mais transparente, mais barata e mais rápida, até o emprego de tecnologias emergentes, como transporte compartilhado por carros autônomos, uso de tokenização para ampliar o acesso ao capital e democratizar ganhos reais advindos de ativos; uso de blockchain em transações para habilitar metadados e aprimorar os relacionamentos cliente-fornecedor, bem como automatizar elementos de governança. Tudo isso é mais difícil de executar nas cidades atuais. Acreditamos que o papel da tecnologia no desenvolvimento de novas cidades na África pode resultar em novo interesse pelo continente como destino de investimento em tecnologia; em grande parte, como consequência de permitir que modelos de negócios emergentes no espaço cripto/blockchain sejam usados em ambientes do mundo real.

 

Nós acreditamos que essas oportunidades são materialmente significativas. É por isso que estamos trabalhando no desenvolvimento de uma rede de cidades em todo o continente. Nossa primeira cidade, Nkwashi, está atualmente em desenvolvimento na Zâmbia. Pretendemos construir vários outras em todo o continente nas próximas décadas. Em última análise, com o objetivo de fornecer a milhões de pessoas a governança privada como um serviço. Isso certamente não é fácil, mas acreditamos que vale a pena. Estamos empolgados com isso e acreditamos que o resto do mundo também deveria estar.

Artigo original

Tradução: Nathan Gomes
Revisão: Pedro Dias


Mwiya Musokotwane é desenvolvedor de “Chater cities”, co-fundador da Frontier Capital Partners e da Thebe Investment Management Limited.

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