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A Sociedade em Evolução – A Visão de Spencer Heath

O neto de Spencer Heath, Spencer Heath MacCallum, elaborou alguns parágrafos para ajudar a esclarecer a diferença entre a posição de Heath e a dos libertários em geral no que diz respeito à evolução da organização social.


A partir de meados do século XVI, os escolásticos tardios de Salamanca, que poderíamos chamar de “protolibertários”, observaram e, assim, vieram a entender que o florescimento econômico decorre da troca voluntária, lançando as bases do livre mercado. Observaram também que os governos políticos, apesar das pretensões em contrário, na verdade, frustram esse processo. O desenvolvimento intelectual da Escola Austríaca de Economia ao longo dos séculos seguintes enriqueceu a abordagem incipiente dos precursores e forneceu um ferramental de análise mais abrangente e fundamentado. Herdeiros desse desenvolvimento intelectual, despontam os libertários, que, ao observarem o crescente avanço dos governos sobre as liberdades individuais, e almejando promover o florescimento humano, focalizam suas atenções na libertação do governo político, daí o nome “libertários” – significando que querem libertação. Eles fazem duas perguntas: como podemos (1) minimizar o governo político?; ou (2) eliminá-lo completamente? A depender de qual destas perguntas é feita, nós temos minarquistas ou anarco-capitalistas. Mas nenhum dos dois sabe como atingir seu objetivo, que, no primeiro caso, é como restringir o governo político e, no outro, como eliminá-lo.

Ambos estão pensando como inventores. Minarquistas parecem pensar que seria possível projetar uma constituição viável, mesmo deixando sua aplicação e interpretação para o estado, o qual a carta constitucional pretende restringir. Anarco-capitalistas, por sua vez, dizem que se não tivéssemos governo político poderíamos fazer isso, aquilo e aquilo outro. Mas o governo está em seu caminho, então, o que farão a respeito? Em certa altura, Rothbard advogou resistir ao governo à força – na verdade, colocando barricadas nas ruas. Não quero com isso menosprezar Rothbard; essa foi certamente uma fase passageira dele, embora eu me lembre o quanto isso perturbou Baldy Harper na época. Assim, libertários, focados na libertação do estado, mas não sabendo como consegui-lo, procuram influenciar a opinião pública, esperando disseminar o pensamento libertário ao divulgar a imoralidade ou inépcia de (1) governos políticos específicos e suas políticas ou (2) o governo político em geral.

Em outra perspectiva, mais voltada ao estudo do fenômeno social tal como se apresenta, Spencer Heath enxergou mais longe e mostrou que a sociedade está evoluindo para além do status de parentesco como forma de definição dos papéis sociais [como eram as sociedades tribais] e para longe do estado, por sua própria conta. Tudo o que é necessário é o entendimento dos eventos aparentemente desconexos da evolução social, para que possamos trabalhar com o estado e não colocar obstáculos desnecessariamente em seu caminho – como Henry George e Karl Marx, por falta de compreensão, tão notoriamente fizeram. Consequentemente, Heath não é um libertário, mas um naturalista social [i.e. estuda os fenômenos sociais tal como faria um naturalista, através da observação]. Além disso, ele sustenta que se opor ou atacar o governo político é contraproducente, pois drena nossas energias, que são finitas, para longe da participação criativa em nossa sociedade ainda jovem, mas em rápida evolução. Obtendo, a partir de sua pesquisa independente, um grau de compreensão científica da organização social humana, descritiva e livre de argumentos morais, ele foi capaz de propor como poderíamos melhor empregar nossas energias ajudando a construir uma indústria privada voltada à produção contratual de serviços comunitários por meio do processo comum do livre mercado. Ele mostrou que tal indústria, mesmo que ainda não reconhecida desta forma, vem se desenvolvendo em ritmo acelerado nos últimos 150 anos, e explicou como ela tem o potencial para substituir governos políticos e render lucros substanciais para seus investidores.

O que as ciências bem-sucedidas têm em comum é que elas dão origem a tecnologias confiáveis. Heath percebeu que, se a tecnologia confiável é o teste de sucesso de uma ciência, então, a julgar pela persistência da política e da guerra, nós claramente não dispomos de Ciências Sociais. Nossa tecnologia social está mostrando sinais inequívocos de esgotamento. A fim de desenvolver uma ciência autêntica da sociedade, Heath publicou, em 1957, Citadel, Market and Altar, delineando uma ciência natural da sociedade que ele denominou “socionomia” – adotando um termo definido no Webster’s International como a “teoria ou formulação das leis orgânicas demonstradas na organização e desenvolvimento da sociedade”. O título do livro simboliza as três funções da sociedade: manutenção da segurança, que torna a sociedade possível; troca voluntária, que a sustenta; e auto-realização individual, que, descoberta por si mesma, se traduz nas buscas criativas e espirituais que movem a sociedade para frente. Conforme definido por Heath, “sociedade” não é uma mera população de indivíduos; é a fração de uma população envolvida na troca voluntária. Portanto, seus limites são permeáveis ​​e seu crescimento e desenvolvimento significativos têm sido recentes, apenas nos últimos séculos.

Heath descreve a rápida ascensão das propriedades de múltiplos inquilinos em imóveis comerciais, sendo este último um aspecto de uma tendência moderna e abrangente, não apenas para a terra, mas para todos os tipos de propriedades administradas, não para seu benefício pessoal dos proprietários, mas diretamente para o benefício de outros – isto é, como capital produtivo. Propriedades de múltiplos inquilinos, como hotéis, shopping centers, parques empresariais, marinas, edifícios de escritórios e combinações desses e de muitos outros tipos, são vistas por Heath como formas especializadas de comunidade, protótipos de comunidades totalmente empreendedoras e apolíticas do futuro. O livro Citadel, Market and Altar teve circulação mínima. Sendo politicamente incorreto e num momento de ascensão socialista, teve que ser privadamente publicado e distribuído como presente para os indivíduos que Heath respeitava.

Ao visualizar proprietários de terras assumindo responsabilidade por funções governamentais, ele antecipou o negócio público tornando-se negócio privado – um importante novo campo de investimento e iniciativa empresarial.

Para um entendimento mais aprofundado da perspectiva de longo prazo da evolução social, veja O Revigoramento da Evolução Social.

Tradução (adaptada): Pedro Dias


Spencer Heath MacCallum é antropólogo social e reside em Casas Grandes, Chihuahua, México.

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